Interview | Lena Vania Ribeiro Pinheiro: “O conhecimento é um bem público e a ‘inclusão cognitiva’ é fundamental para a justiça social”

In a visit to BAHIANA – School of Medicine and Public Health for the release of the BAHIANA Journals Webportal, the coordinator of Science and Information Technology Teaching and Research at the Brazilian Institute of Information in Science and Technology (IBICT), Prof. Lena Vania Ribeiro Pinheiro talked with the portal team about the concept of “open science”, addressing the social role played by journals. Among the points discussed, she highlighted the IBICT’s role in the international open access movement and the challenges that the organizations involved in the OA initiative face. Check the interview (in Brazilian Portuguese).

 

Bahiana Journals – Sua palestra teve como tema “O papel social dos periódicos no desenvolvimento científico e social”. Poderia explanar, brevemente, sobre “o papel social dos periódicos”?

Prof.ª Lena Vania Pinheiro Ribeiro – Os periódicos científicos são, ainda hoje, depois de mais de três séculos de sua existência, o principal canal de comunicação formal na ciência, propiciando que pesquisadores conheçam as pesquisas de outros pesquisadores, seus pares, e   estabeleçam colaborações, por exemplo. O periódico exerce uma função primordial que é a de assegurar a propriedade intelectual aos autores, bem como atribuir prestígio, pelo conhecimento e reconhecimento de sua produção.  A passagem do formato impresso para o eletrônico trouxe mais valor agregado ao periódico, como a universalidade de disseminação e acesso, processo de editoração mais rápido e com menores custos, interatividade entre autores, leitores e editores e navegação hipertextual, enriquecendo a leitura.

 

BJ – Qual a posição do IBICT no que se refere ao acesso livre à produção científica?

Prof.ª Lena Vania Pinheiro Ribeiro – O IBICT, desde os anos 2000, está engajado no movimento internacional de acesso aberto a informações científicas, seguindo iniciativas como a de Berlim, tanto que, em 2005, lançou o Manifesto Brasileiro de Apoio ao Acesso à Informação Científica, com recomendações às instituições acadêmicas, aos pesquisadores, agências de fomento e editoras comerciais de publicações científicas. Como estímulo e apoio ao acesso aberto a publicações científicas, o IBICT lançou o   Sistema Eletrônico de Editoração de Revistas (SEER), software   cujo objetivo é a editoração e gestão de publicações periódicas eletrônicas, além de oferecer gratuitamente treinamentos no SEER, presenciais e a distância.

Como fruto da política adotada, o IBICT, juntamente com a Universidade do Minho, instituição com a qual estabeleceu acordo, promove um evento voltado a comunidades lusófonas, a Conferência Luso-Brasileira de Acesso Aberto (ConfOA), alternadamente realizada no Brasil ou em Portugal. Neste ano será promovida a sua oitava edição, no Rio de Janeiro, pela Fundação Oswaldo Cruz.

 

BJ – Quais as principais barreiras para esse livre acesso? O que precisa ser pontuado para se atingir esse objetivo?

Prof.ª Lena Vania Pinheiro Ribeiro – Há várias barreiras que, gradativamente, foram sendo superadas. Inicialmente, a principal foi romper com a resistência de pesquisadores à nova ideia ou nova forma de comunicação científica, em maior ou menor grau, de acordo com a cultura de cada área do conhecimento. Havia o temor de o acesso aberto facilitar o plágio, o que não ocorre, pelo contrário, fica mais fácil identificar eletronicamente os casos de plágio. Outra dificuldade é a do próprio pesquisador fazer o autoarquivamento de sua produção científica, o que requer um certo tempo que nem sempre ele dispõe. A consequência foi a de que, de um modo geral, os bibliotecários das instituições foram treinados para assumir essa função. Em termos de política institucional, ainda são raras, no Brasil, as mandatórias obrigando os pesquisadores a tornar de acesso aberto a sua produção científica financiada com recursos públicos. Essas pesquisas foram o motivo maior do movimento, afinal, é inconcebível que o governo financie uma pesquisa e a sociedade não possa ter acesso ao seu conteúdo, bem como o autor. Outros fatos motivadores de acesso aberto às informações científicas são o custo exorbitante das revistas científicas de editoras comerciais e problemas de propriedade intelectual dos autores.

Para efetivação do acesso aberto à informação científica, são necessários instrumentos como os repositórios institucionais e temáticos, além de bibliotecas digitais, e as instituições devem se preparar para o seu desenvolvimento, tanto técnica como tecnologicamente, com atenção especial à interoperabilidade e preservação digital.

Um motivo que mais reverteu a atitude dos pesquisadores ainda resistentes foi a comprovação, inclusive  cientificamente, da maior visibilidade das pesquisas e  de  crescimento do seu  índice de citação, quando em acesso aberto.

 

BJ – O conceito de “Ciência Aberta” é um caminho para a democratização do acesso à pesquisa. Como ela funciona?

Prof.ª Lena Vania Pinheiro Ribeiro – Ciência Aberta é um conceito muito amplo, envolve diferentes vertentes e ainda não está suficientemente estudado mas, indubitavelmente, é uma forma de democratização da informação, da pesquisa e da própria ciência. Difere do acesso aberto à informação científica por ser a sua extensão ou ampliação. Mais do que tornar disponível, eletronicamente e de forma aberta, o texto de uma pesquisa, um artigo, por exemplo, tornará acessíveis os dados que foram a base para o seu desenvolvimento. Trata-se das fontes primárias, em geral não incluídas na publicação de artigos de periódicos, constituídas por uma variedade de dados de pesquisa como cálculos, estatísticas, anotações, questionários, vídeos, filmes, modelos e software, entre outros.

Considerando o imenso volume de pesquisas e suas respectivas informações, cada vez maior e, ainda, que dados de pesquisas são únicos, a sua vulnerabilidade à perda pode ocasionar prejuízos incalculáveis à ciência.

Assim, se os dados de pesquisa forem de acesso aberto, possibilitarão o seu compartilhamento com outros pesquisadores e sua reutilização, gerando novos conhecimentos, além de trazer mais transparência à ciência.

O IBICT, da mesma forma que ocorreu com o acesso aberto à informação científica, também lançou o Manifesto de Acesso Aberto a Dados da Pesquisa Brasileira para Ciência Aberta, com diretrizes gerais aos institutos de pesquisa e universidades; às sociedades científicas e academias de ciência do Brasil; aos órgãos de fomento à pesquisa e desenvolvimento; aos editores de revistas ou periódicos científicos; aos cursos de pós-graduação e graduação nas áreas de informação; aos gestores e executores de programas e projetos de dados de pesquisa e aos pesquisadores

A frase final do manifesto é uma declaração de responsabilidade do IBICT em relação à Ciência Aberta e a filosofia adotada no instituto: “o conhecimento é um bem público e a ‘inclusão cognitiva’ é fundamental para a justiça social”.

Leave a Reply

Please log in using one of these methods to post your comment:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: