Interview | Daniel Magalhães Goulart: “Penso que o tripé ‘teoria, epistemologia e método’ não tem sido bem sustentado na Psicologia. Esse é um problema histórico, mas com amplos desdobramentos, ainda hoje, no campo”

The Bahiana Journals webportal spoke with Prof. Dr. Daniel Magalhães Goulart about the the challenges of qualitative research in Brazil. Read and #ShareKnowledge. (Text in Brazilian Portuguese).

 

Bahiana Journals – Quais os desafios da publicação qualitativa no Brasil?

Daniel Magalhães Goulart – Os desafios da publicação qualitativa no Brasil passam pelo reconhecimento de suas inconsistências que foram sendo historicamente produzidas e reproduzidas, para então buscar alternativas específicas de cada campo do conhecimento.

É curioso que, após mais de um século do advento da pesquisa qualitativa nas ciências humanas, parte significativa de seus representantes continuem reduzindo sua discussão a aspectos técnicos pontuais relativos às formas de se conduzir uma investigação. Expressão disso é o tipo de discussão que hegemonicamente se tem nos congressos científicos dedicados à pesquisa qualitativa, nos quais se enfatiza enormemente o resultado pontual e parcial de pesquisas, bem como técnicas de aplicação de instrumento e de análise de dados, em detrimento de discussões teóricas e epistemológicas aprofundadas para avançar na geração de caminhos alternativos aos seus problemas.

O qualitativo remete-se a diferentes possibilidades de abordar dimensões do objeto pesquisado que extrapolam a quantificação como recurso dominante na construção da ciência. Por isso, como defende o Prof. Fernando González Rey em sua obra, remete-se, simultaneamente, a questões relativas a como fazê-la (dimensão metodológica), ao que se busca representar com a pesquisa (dimensões ontológica e teórica), bem como aos princípios que sustentam essa aproximação (dimensão epistemológica). No meu ponto de vista, fora da sustentação desse tripé, não há “salvação” para a pesquisa qualitativa.

 

BJ – Como você avalia os artigos científicos que abordam pesquisas qualitativas no campo da Psicologia produzidos aqui no Brasil atualmente?

Daniel Magalhães Goulart – De modo geral, penso que o tripé “teoria, epistemologia e método”, mencionado previamente, não tem sido bem sustentado na Psicologia. Esse é um problema histórico, mas com amplos desdobramentos ainda hoje no campo. Devemos lembrar, junto com autores como F. González Rey, S. Koch, K. Danzinger, M. Foucault e I. Parker, que a Psicologia, desde sua constituição, foi assumindo um caráter naturalista, na busca por legitimar-se enquanto ciência moderna, distanciando-se profundamente de suas questões históricas, epistemológicas e culturais. Houve uma associação entre ênfase no controle e importação acrítica de modelos hegemônicos de outras ciências, levando ao caráter ateórico, que ainda sustenta boa parte das pesquisas em Psicologia.

Dessa forma, deixou-se de enfatizar, inclusive, os aspectos ideológicos que fundamentam parte das pesquisas realizadas no campo. Culminou-se em uma práxis científica utilitarista, associada a determinados grupos de poder. Atualmente, isso se expressa mundialmente na chamada “ciência baseada em evidência”. Esse tipo de ciência, que apresenta o argumento da “evidência” de forma tão simplificada como canônica é, entretanto, muito pouco discutido. Dificilmente se questiona, por exemplo, o que se constitui em evidência, ou quem é responsável por essa decisão. No campo da saúde mental, no qual tenho realizado pesquisas, essa lógica tem levado ao impulsionamento de determinadas abordagens psicológicas, notadamente aquelas centradas no comportamento humano, bem como tem-se associado à proliferação de diagnósticos e à excessiva ênfase nas práticas medicamentosas.

Mais especificamente nas pesquisas qualitativas, essa lógica tem levado a uma discussão reificada do método, tal como acontece amiúde nas pesquisas quantitativas. O método é considerado como uma realidade em si, independentemente das especificidades singulares dos objetos estudados e dos quadros teóricos aos quais se associa. Esse quadro tem sido conceitualizado por autores como S. Koch e K. Danzinger, respectivamente, como “fetichismo metodológico” e “metodolotraria”. Assim, centraliza-se o foco nas dimensões técnicas e instrumentais, sem reflexões suficientes sobre o que significa empreender uma investigação de acordo com a singularidade ontológica dos objetos de estudo pretendidos.

Outra expressão problemática dessas limitações, no âmbito da pesquisa qualitativa, é a separação artificial entre “pesquisa de campo” e “análise de dados”, que empobrece tanto o método quanto a teoria. O pesquisador é considerado, desse modo, como um coletor de informações, enquanto a teoria é concebida enquanto conjunto hermético de “conceitos-conteúdos” a serem aplicados em determinada realidade estudada. Perde-se, portanto, de vista a importância daquilo que fundamenta, no nível mais básico, qualquer pesquisa: a construção do pensamento.

 

BJ – Quais são os principais critérios para realizar uma boa pesquisa qualitativa?

Daniel Magalhães Goulart – Esses critérios não podem ser identificados com aqueles clássicos critérios da ciência moderna relacionados à objetividade, precisão e validade, no intuito de melhor prever e controlar o objeto estudado. Caso contrário, a pesquisa qualitativa continuaria sustentada epistemologicamente por aquilo que critica.

Minha resposta a essa questão é baseada na proposta do professor Fernando González Rey, que coordena o grupo de pesquisa que integro no âmbito do Centro Universitário de Brasília e da Universidade de Brasília. Sua plataforma de pensamento, que associa epistemologia qualitativa, metodologia construtivo-interpretativa e teoria da subjetividade, reivindica o pesquisador como sujeito do processo investigativo, sendo dimensão crucial na criação, imaginação e produção de alternativas de inteligibilidade sobre a realidade estudada. Opõe-se à visão, portanto, do pesquisador coletor de dados e sistematizados de informações, que ainda, mesmo que sub-repticiamente, guia suas ações pela ilusão de neutralidade.

Não entrarei em detalhes dessa proposta, pois nos desviaria do foco da questão. Mas gostaria, precisamente, de enfatizar critérios centrais de uma boa pesquisa qualitativa nessa perspectiva, que, certamente, podem ser úteis também a outras perspectivas investigativas. Trata-se de defender que a pesquisa qualitativa deve-se voltar à produção de modelos teóricos capazes de gerar visibilidade sobre fenômenos que não podem ser identificados pela “evidência empírica”, ou alcançados por critérios de significação linear. Não se trata de chegar a um conhecimento supostamente verdadeiro ou fidedigno, dentro dos critérios clássicos da ciência moderna, mas de gerar construções interpretativas capazes de auxiliar no avanço da compreensão dos processos humanos e do mundo, colocando-nos em outros patamares de relação com eles.   Não há fragmentação, sob essa ótica, entre produção de conhecimento e prática, precisamente porque a teoria é um processo em permanente desenvolvimento, alimentando e sendo alimentada por novos domínios da prática.

Longe de ser padronizado, validado e universal, o método, nessa perspectiva, é uma dimensão criativa, que se volta às possibilidades dialógicas de abordar as especificidades do objeto estudado. Volta-se ao favorecimento de relações e de expressões autênticas e engajadas com o processo da pesquisa, jamais de forma dissociada dos desafios teóricos e epistemológicos em determinado campo. Assim, a sustentação do tripé “teoria, epistemologia e método” parece-me condição, embora complexa, elementar para avançar na qualidade de pesquisas qualitativas consistentes em qualquer campo de conhecimento.

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