Op-Ed | Ciência sem gravata e com Evidência

Quando começamos a debater a possibilidade de criar a Evidence, a primeira questão que surgiu se referia ao porquê da necessidade de outra revista biomédica em um ambiente altamente competitivo, repleto de periódicos. Neste sentido, lembramos da frase de Douglas Altman em seu famoso artigo de 1994, The Scandal of Poor Medical Research: “precisamos de menos pesquisas, melhores pesquisas e pesquisas feitas pelas razões certas”.

Luis Cláudio Correia (Evidence Editor-in-chief)
João de Deus Barreto Segundo (Evidence Executive Editor)
Versão em português: José Elias (BAHIANA Journals Executive Editor)

Quando começamos a debater a possibilidade de criar a Evidence, a primeira questão que surgiu se referia ao porquê da necessidade de outra revista biomédica em um ambiente altamente competitivo, repleto de periódicos. Neste sentido, lembramos da frase de Douglas Altman em seu famoso artigo de 1994, The Scandal of Poor Medical Research (1): “precisamos de menos pesquisas, melhores pesquisas e pesquisas feitas pelas razões certas”. Em geral, o valor preditivo de publicações científicas originais é menor que 50% (2), resultado de imprecisão (amostra insuficiente), vieses metodológicos (baixa qualidade do desenho da pesquisa) e vieses cognitivos (conclusões elaboradas de maneira a melhor conciliar os resultados com as perspectivas e preferências do pesquisador), sem mencionar o P-hacking (3), mudanças de protocolo com estudos já em andamento e viés de publicação.

Portanto não precisávamos de mais uma revista para publicar mais artigos originais. O que precisávamos era de um fórum de análise crítica do ecossistema de produção e publicação de evidência científica com foco em saúde, feita de comentários ou artigos originais de metaciência. Nasceu então a Evidence, com um escopo bem diferente do usual e a missão de permitir o debate sobre integridade, transparência científica, e validade (ou não) de evidências empíricas.

Assim, o objetivo do Journal of Evidence-based Healthcare não é apenas fornecer mais pesquisas originais, já temos muito disso. A cada nove anos, a produção científica dobra (4). Nosso objetivo é promover a ideia de que, como consumidores da ciência, devemos ser críticos em relação à qualidade das informações que estamos consumindo. Fake news científicas são mais perigosas do que notícias falsas em geral: parecem mais válidas porque se originam em artigos publicados em revistas científicas.

Um dos propósitos da ciência na sociedade moderna é informar as políticas públicas e participar das tomadas de decisão, que geralmente impactam a sociedade como um todo (incluindo os cientistas). Fora isso, sempre foi papel da ciência duvidar das próprias suposições e tentar provar-se errada antes de chegar a algum consenso. Então, esta é uma convocatória para não aceitar a evidência em um artigo publicado como verdade irrefutável, e também para manter o debate científico vivo e dinâmico.

Evidence é um fórum para isto.

Por esse motivo, nosso escopo inclui artigos de apreciação crítica da literatura científica, revisões sistemáticas de metaciência (descrevendo o comportamento do campo científico), artigos de boa qualidade com achados negativos (que geralmente não recebem ou recebem menos atenção que artigos contendo achados positivos de qualidade inferior).

Nosso outro objetivo é popularizar a cultura científica entre os profissionais de saúde e a sociedade. Artigos conceituais serão bem-vindos para fornecer conhecimento, não apenas sobre metodologia científica, mas também sobre como traduzir conceitos científicos em decisões clínicas. Partimos do princípio de que, – como dito anteriormente por Ioannidis, com quem concordamos – a utilidade da pesquisa e os benefícios sociais projetados devem ser priorizados (5). A partir disto, também podemos inferir que o impacto social previsto para uma investigação científica deve vir antes do fator de impacto (que de qualquer maneira não mede impacto algum). E, para alcançarmos isto, devemos procurar por evidências fortes através de ferramentas e desenhos de estudo mais robustos, transparentes e reprodutíveis.

Por fim, serão aceitos também artigos originais para validar ferramentas para tomada de decisão baseada em evidências, como, por exemplo, diagnóstico, prognóstico e informações sobre eficácia/efetividade e tomada de decisão compartilhada.

Convidamos você a conhecer as 17 seções e seus editores associados.

Mais que uma revista, esperamos que a Evidence seja uma comunidade de pessoas para promover a cultura científica na sociedade, separando assim ciência de pseudociência. Trataremos a ciência informalmente (embora com rigor), com a convicção de que nosso debate diz respeito à vida cotidiana e a todos, não devendo ser restrita à academia visto que a ciência tem o poder de informar como viver melhor. O conhecimento deve ser compartilhado pois é um bem comum e não um privilégio.

Vamos tirar a ciência da caixinha!

  1. Altman, DG. The scandal of poor medical research. BMJ. 1994 Jan 29;308(6924):283-4.
  2. Ioannidis JPA. Why Most Published Research Findings Are False. PLoS Med. 2005 Aug; 2(8): e124. doi: 10.1371/journal.pmed.0020124
  3. Colquhoun, D. The problem with p-values. Aeon Magazine. 2016 Oct 11. Available at https://aeon.co/essays/it-s-time-for-science-to-abandon-the-term-statistically-significant
  4. Bornmann L, Mutz R. Growth rates of modern science: A bibliometric analysis based on the number of publications and cited references. J Assoc Inf Sci Technol. 2014 May 08. arXiv:1402.4578 [cs.DL].
  5. Ioannidis JPA. Why Most Clinical Research Is Not Useful. PLoS Med 2016 Jun; 13(6): e1002049. doi: 10.1371/journal.pmed.1002049

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