Relato de experiência

 

Formação de monitores: desenvolvimento de atitudes baseado nos saberes de Paulo Freire / Monitor formation: developing attitudes inspired by Paulo Freire's principles

 

Adriana Pedrosa1 (https://orcid.org/0000-0002-2316-1670)

Livia Souza Pugliese2 (https://orcid.org/0000-0002-1001-4241)

Cláudia Andrade Britto3 (https://orcid.org/0009-0009-2364-0127)

Enzo Thor Almeida dos Santos4 (https://orcid.org/0009-0003-4095-0975)

Ieda Maria Barbosa Aleluia5 (https://orcid.org/0000-0002-7979-1938)

 

1Contato para correspondência. Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública (Salvador). Bahia, Brasil. [email protected]

2Universidade do Estado da Bahia (Salvador). Bahia, Brasil.

3-5Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública (Salvador). Bahia, Brasil.

 

RESUMO | INTRODUÇÃO: A monitoria acadêmica no ensino superior contribui para a formação integral tanto do monitor quanto do aluno. Para isso, as oficinas de formação dos monitores devem seguir os princípios da educação libertadora e crítico-reflexiva, preparando o monitor para além do tecnicismo conteudista. OBJETIVO: Relatar a experiência da implementação de um programa de formação para monitores, com foco no desenvolvimento de atitudes, conhecimentos e habilidades essenciais para sua formação integral. RELATO DE EXPERIÊNCIA: A oficina de desenvolvimento de atitudes na formação de monitores se inicia com a reflexão sobre os pontos positivos e negativos da monitoria, além de possíveis soluções, a partir da vivência dos monitores enquanto alunos. Após essa etapa, os participantes têm 30 minutos para ler trechos do livro Pedagogia da Autonomia, de Paulo Freire, e, em seguida, participam de uma roda de conversa para a discussão de suas percepções sobre o texto e sua correlação com a prática educativa do monitor. Essa abordagem busca integrar reflexão e prática na promoção de um aprendizado crítico, colaborativo e participativo entre futuros educadores. CONSIDERAÇÕES FINAIS: A oficina realizada foca na reflexão crítica e ampla sobre o papel do monitor, incentivando a problematização, a análise e a discussão sobre as competências necessárias a um sujeito do processo de ensino-aprendizagem. Assim, almeja-se formar um monitor que atue no componente curricular como agente de transformação do processo de ensino-aprendizagem, e não apenas como transmissor de conteúdo, contribuindo significativamente para o desenvolvimento acadêmico e humano.

 

PALAVRAS-CHAVE: Educação Baseada em Competências. Educação Médica. Educação de Graduação em Medicina. Modelos Educacionais.

 

ABSTRACT | INTRODUCTION: Academic monitoring in higher education contributes to the comprehensive development of both monitors and students. To achieve this, monitor training workshops must follow the principles of liberating and critical-reflective education, preparing the monitor beyond technical content-based approaches. OBJECTIVE: To report the experience of implementing a monitor training program, focusing on developing attitudes, knowledge, and skills essential for comprehensive training. EXPERIENCE REPORT: The attitude development workshop in monitor training begins with a reflection on the positive and negative aspects of the monitoring program, as well as possible solutions based on the monitors' experiences as students. After this stage, participants have 30 minutes to read excerpts from Paulo Freire's Pedagogia da Autonomia (Pedagogy of Autonomy), followed by a discussion circle to share their perceptions of the text and its correlation with the monitor’s educational practice. This approach integrates reflection and practice, promoting critical, collaborative, and participatory learning among future educators. FINAL CONSIDERATIONS: The workshop emphasizes a broad and critical reflection on the monitor’s role, encouraging problematization, analysis, and discussion of the competencies necessary for an active participant in the teaching-learning process. The aim is to prepare monitors who act as agents of transformation, rather than merely as content transmitters, contributing meaningfully to academic and human development.

 

KEYWORDS: Competency-Based Education. Medical Education. Undergraduate Medical Education. Educational Models.

 

Como citar este artigo: Pedrosa A, Pugliese LS, Britto CA, Santos ETA, Aleluia IMB. Formação de monitores: desenvolvimento de atitudes baseado nos saberes de Paulo Freire. Rev Inter Educ Saúde. 2026;10:e6389. https://doi.org/10.17267/2594-7907ijeh.2026.e6389

 

Submetido 24 jul. 2025, Aceito 12 dez. 2025, Publicado 16 mar. 2026

Rev. Inter. Educ. Saúde., Salvador, 2026;10:e6389
https://doi.org/10.17267/2594-7907ijeh.2026.e6389

ISSN: 2594-7907
Editora responsável: Ana Cláudia Costa Carneiro

 

1.    Introdução

 

O programa de monitoria nas universidades do Brasil foi inicialmente estabelecido pela Lei nº 5.540 de 1968, que dispõe sobre normas de organização e funcionamento do ensino superior. No texto, é estabelecido que as universidades criem funções de monitor para alunos que se submeterem a provas específicas, demonstrando domínio e capacidade de desempenhar atividades didáticas de determinada disciplina, sendo remunerados para atuar dessa forma1. A Lei nº 9.394 de 1996 trouxe alterações à legislação anterior, mas o programa de monitoria permaneceu com um texto similar, em que os discentes poderiam ser integrados em tarefas de ensino e pesquisa, com funções de monitoria, de acordo com seu rendimento acadêmico2,3. Desde então, instituições de ensino superior têm implementado programas de monitoria acadêmica com base em legislações internas específicas4.

 

A monitoria acadêmica do ensino superior é uma atividade discente, desenvolvida sob orientação e supervisão docente, com o objetivo de promover nesses discentes o desenvolvimento de competências cognitivas, procedimentais e atitudinais durante as oficinas de formação e no exercício das atividades como monitor. Além disso, a atividade de monitoria inicia o aluno-monitor na docência e contribui para o processo de ensino-aprendizagem no componente curricular no qual o monitor atua5,6. A proposta central da monitoria, portanto, está relacionada a um aprendizado contínuo entre pares, pois os alunos aprendem com seus monitores, mas, estes, também aprendem tanto entre si, quanto com os alunos, em um exercício de constante troca de conhecimentos7. Nesse contexto, a monitoria acadêmica é uma importante oportunidade na formação do aluno-monitor8.

   

A atuação do monitor deve ser ampla, pois abrange desde o planejamento de atividades, seguido da interação direta com discentes até a discussão de processos avaliativos com docentes5. Sendo assim, o monitor auxilia na elaboração de materiais didáticos, no desenvolvimento de metodologias ativas, na realização de atividades práticas e no suporte a dúvidas, constituindo um importante elo entre docente e discentes6,9,10.

 

As atividades de monitoria ultrapassam, dessa forma, o espaço físico e tempo de aula, já que englobam a realização de reuniões, oficinas de formação do futuro monitor e assistência extraclasse a alunos9. Sendo assim, algumas atividades começam antes do início do semestre letivo como as oficinas de formação do futuro monitor. Essas oficinas têm o intuito de desenvolver competências específicas relacionadas às bases teórico-práticas do componente curricular, habilidades e atitudes que alicerçam o exercício do papel de monitor e sua relação com o professor, os alunos e a sociedade11.

 

Nesse contexto, as oficinas de formação do monitor visam a diminuir as dificuldades enfrentadas pelos novos monitores no exercício de suas funções, a ampliar o conhecimento e a uniformizar as condutas no processo de ensino-aprendizagem2,12. Além disso, as oficinas de formação não devem se restringir à aquisição de conhecimentos, mas devem ter um caráter formativo amplo e reflexivo.

 

As atividades preparatórias podem envolver discussões sobre o papel do monitor, revisões de técnicas, aprofundamento de conhecimentos e aperfeiçoamento com relação à didática2. Além disso, devem promover uma reflexão sobre a práxis pedagógica e o papel do monitor como agente educador.

 

Desse modo, o exercício da monitoria visa à construção de conhecimentos inerentes à prática, contudo, não se limita a ela. O contexto formador e transformador da educação precisa estar presente e ser intencional na preparação dos monitores. Nesse sentido, as oficinas de formação do monitor precisam estar alinhadas com o conceito de que formar vai além de treinar o educando no desempenho de destrezas13.

 

A formação do monitor deve ser parte de uma prática educativa-crítica, norteada por uma reflexão do processo de ensino-aprendizagem que vai além da transmissão de conteúdos técnico-didáticos. Dessa forma, distanciando o processo educativo de um modelo bancário de depósito e aquisição de saberes13,14.

 

É nesse sentido que devemos, numa prática educativa-crítica, ter coerência e clareza de que não podemos almejar uma aula dialógica, com o protagonismo discente onde o estudante é o sujeito do seu processo de ensino-aprendizagem, quando no processo de formação de monitores trabalhamos com o ensinar-aprender vertical.

 

Nesse cenário, se, na experiência de formação de um monitor, aceita-se que o agente formador – o sujeito – é o docente, e que aquele a quem é transferido o conhecimento – o objeto – é o monitor, este, hoje objeto, será amanhã um falso sujeito no processo de “formação” de outro futuro objeto: o aluno13. Dessa forma, descontextualizando o real papel do processo de formação e se afastando da coerência entre o dizer e o fazer.

 

A experiência educativa deve ser fundamentada na indissociabilidade entre a formação moral e ética e o processo de ensino-aprendizagem de conteúdos inerentes à prática profissional do educando13. Não é possível também ser sujeito da educação e estar alheio ao mundo e às pessoas que direta ou indiretamente fazem parte e contribuem para todo o processo de ensinar-aprender. Sendo assim, não há como separar discente, cidadão e futuro profissional. Portanto, é imperativa a formação completa do monitor, pois educar é formar13.

 

As oficinas reflexivas sobre o processo de ensino-aprendizagem são frutíferas para estimular a curiosidade do monitor/aluno e jamais tolhê-la15. É no acolher dessa curiosidade que mostramos, por corporificação do exemplo, que a prática educativa deve ser impulsionadora pelo pensar crítico, baseado no respeito ao conhecimento prévio do aluno, suas vivências e curiosidades como parte de uma discussão dialógica14. A experiência do discente, neste caso, monitor, influencia a sua prática enquanto aluno-monitor e inspira para um possível cargo de docente no futuro13. Neste construir do pensamento crítico, o monitor que almeja ser docente ou que, até certo ponto, exerce o papel importante no ensinar-aprender do aluno deve ser convidado a ter uma visão mais ampla e não restrita a conteúdos programáticos, pois deve refletir sobre a forma com que o conteúdo é apresentado, se dialógica ou autoritária13.

 

A Pedagogia da Autonomia, de Paulo Freire, orienta a proposta formativa apresentada neste relato ao reconhecer o estudante como sujeito histórico e cultural, cujos saberes prévios devem ser valorizados e problematizados. Entre os saberes necessários à prática docente, Freire destaca o respeito aos educandos, a dialogicidade, a consciência do inacabamento e a compreensão de que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar possibilidades para sua construção crítico-reflexiva13.

 

No âmbito da monitoria, esses princípios sustentam a visão do monitor como agente educador que atua para além do tecnicismo disciplinar. Assim, sua formação deve promover práticas colaborativas, reflexivas e eticamente comprometidas, alinhadas aos pressupostos da educação libertadora, que estimula a autonomia e o protagonismo discente. Essa perspectiva articula atitudes, habilidades e conhecimentos de forma coerente com a educação médica baseada em competências.

 

Considerando que a monitoria constitui também um espaço de iniciação à docência, é fundamental que o processo formativo reflita esses saberes freirianos, favorecendo uma prática educativa crítica, humanizadora e comprometida com a transformação social.

   

O presente relato tem o intuito de apresentar uma das oficinas de formação de novos monitores da componente curricular de Biomorfofuncional de um curso de Medicina privado em Salvador/BA, com foco na formação integral do monitor, baseada nas competências descritas no artigo16.

 

2. Contextualização

 

O programa de monitoria de Histologia é parte do componente curricular Biomorfofuncional do curso de Medicina de uma faculdade privada, sem fins lucrativos, localizada em Salvador/BA. A carga horária total da monitoria é de 250 horas distribuídas ao longo de um ano. Deste total de carga horária, cem horas são dedicadas a oficinas de formação do novo monitor, sendo estas organizadas antes do início de cada semestre letivo e divididas entre eles (cinquenta horas semestrais para o treinamento). O programa de monitoria tem, atualmente, um total de oito monitores e quatro supervisores. Após o processo seletivo, o estudante ingressa na monitoria como monitor dos alunos do primeiro semestre (M1) e, depois, dos alunos do segundo semestre (M2). Assim, ao fim de um ano de monitoria, os monitores M2 podem se candidatar ao cargo de supervisor.

   

As atividades propostas nas oficinas foram organizadas de acordo com o apresentado no artigo16 que elenca as competências consideradas necessárias para a formação do monitor de histologia e a sistematização das atividades para facilitar o processo de formação do monitor. A sistematização dessas competências é baseada em três eixos: conhecimentos, habilidades e atitudes que visam à formação integral do monitor. As atividades desenvolvidas nas oficinas utilizaram metodologias ativas, com foco no protagonismo do estudante/monitor, no aprendizado entre pares e na discussão reflexiva.

 

As oficinas são realizadas ao longo de uma semana em cada semestre de monitoria, abordando diferentes aspectos da formação dos monitores. A primeira é a oficina de reflexão sobre competências atitudinais baseadas em textos de Paulo Freire. Nos dias posteriores são realizadas oficinas de desenvolvimento de conhecimentos e habilidades. Nessas oficinas ocorre a apresentação e discussão de temas teóricos com os docentes, a apresentação de lâminas histológicas, aprendizado entre pares e discussões sobre o uso de recursos tecnológicos. Neste relato, o foco será na primeira oficina.

 

3. Relato de experiência

 

3.1 Desenvolvimento de competências atitudinais

 

A monitoria de Histologia foi implementada em 2013. Ao longo de mais de uma década, desde a primeira turma de monitores, foram sendo implementadas mudanças com relação à organização, à metodologia e ao cronograma de atividades, sempre tendo como alicerce as competências descritas no artigo de Pugliese16.

   

O desenvolvimento de atitudes coerentes com a atividade de monitor e com a boa convivência em sociedade é o foco da primeira oficina oferecida durante a semana de formação de monitores de Histologia. Embora o desenvolvimento dessas atividades seja o foco da primeira oficina, não se limita a ela, pois, durante as demais oficinas de construção de conhecimentos e habilidades, as atitudes são trabalhadas de forma indissociável.

 

3.2 Organização da oficina

 

A parte inicial da oficina é destinada à reflexão sobre o semestre anterior. Os monitores e supervisores são convidados a enumerar os pontos positivos, os negativos e as possíveis soluções para os problemas enfrentados. Para tanto, são distribuídos papéis de cor amarela, verde e rosa, respectivamente. Após o momento inicial de escrita, os monitores são convidados a trocar os papéis e, ao lerem em voz alta, debatem sobre o tema.

   

A reflexão sobre a prática pedagógica, no movimento de escuta e discussão coletiva, é parte do processo de formação do monitor e não visa apenas ao aperfeiçoamento do programa de monitoria. Nesse sentido, os monitores desenvolvem a escuta, aprendem a dar espaço ao silêncio, a motivar colegas e a dialogar numa discussão salutar. É um processo democrático por si, em que aprendem e ensinam a discordar e a concordar de forma humanista e respeitosa, conforme a matriz de competências proposta no artigo16. A revisita, a troca de experiências e vivências do semestre anterior leva à luz também uma reflexão sobre o ser educador e a sua consciência sobre o inacabamento, que será mais bem discutida na segunda parte da oficina.

          

No segundo momento da oficina, os monitores têm 30 minutos para ler alguns trechos do livro de autoria do educador e filósofo Paulo Freire. Os temas abordados estão descritos no Quadro 1.

 

Quadro 1. Temas do livro Pedagogia da Autonomia abordados na oficina

 

O critério de escolha dos trechos da obra de Paulo Freire, Pedagogia da Autonomia, foi baseado nas atitudes que se almeja serem contempladas na formação do monitor de Histologia e descritas em Pugliese16. O Quadro 2 detalha estas atitudes correlacionadas aos respectivos temas de Pedagogia da Autonomia descritos no Quadro 1.

 

Quadro 2. Temas do livro Pedagogia da Autonomia abordados na oficina

Código “A” do Quadro 2 equivale a Atitude.

 

Findado o tempo, é realizada uma roda de conversa acerca do texto para discussão reflexiva coletiva. Cada monitor é responsável por comentar sobre um tema relatando sua percepção sobre o texto e a correlação do texto com a prática educativa do ser monitor. Nesse momento, de duração de 90 minutos, guiados pelos saberes de Paulo Freire, os monitores são convidados a refletir e problematizar o processo educativo no intuito de transformar a si próprios e ao mundo. Dois dos autores deste artigo, atualmente supervisores, realizaram as oficinas durante o período em que eram monitores. A seguir, compartilham seus relatos sobre essa experiência.

 

Essa dinâmica inicial reafirma o princípio freiriano de que a reflexão crítica sobre a prática e experiências vividas é condição para sua transformação. Ao reconhecer suas próprias fragilidades e potencialidades, os monitores vivenciam a consciência do inacabamento e compreendem que aprender é um ato contínuo e coletivo. A escuta ativa, o respeito às diferenças e o exercício da argumentação são vivenciados não como conteúdos a serem transmitidos, mas como práticas dialógicas que estruturam a própria oficina.

 

3.3 Reflexões dos supervisores

 

Supervisor 1

 

Minha atuação como monitor e supervisor, tanto dentro de sala de aula quanto nas oficinas de formação, foi um divisor de águas na minha trajetória acadêmica, pessoal e futura carreira profissional. O enfoque das oficinas vai além do conteúdo curricular, abordando questões atitudinais, habilidades e competências fundamentais para um estudante e um futuro médico. Estudando e debatendo as ideias de Paulo Freire, desenvolvemos ética, postura e respeito às opiniões diversas, e isso influenciou meu comportamento em outras atividades acadêmicas. Competências como oratória, improvisação e empatia se tornaram fundamentais para apresentações em aulas, em congressos e na interação com colegas e alunos. Assim, fica evidente que as habilidades e atitudes desenvolvidas nas oficinas extrapolam a monitoria e serão essenciais na minha futura atuação profissional, seja na docência ou em outras áreas da vida.

 

Supervisor 2

 

A monitoria, tanto em sala de aula quanto nas oficinas de formação, expandiu minha visão para além do conteúdo programático do componente curricular. A primeira discussão entre monitores e professor-orientador, sobre os fragmentos de textos de Paulo Freire, foi um marco, na minha vida, na compreensão das atribuições e valores fundamentais para a atuação acadêmica. Digo que esse episódio teve e ainda terá muito valor na minha caminhada, pois serviu como um norteador das minhas atitudes, falas e pensamentos. Desde meu primeiro dia na monitoria até a supervisão, desenvolvi habilidades como responsabilidade, compromisso, gestão do tempo, oratória, diálogo e respeito. O equilíbrio entre conhecimento técnico e atributos essenciais ao discente foi fundamental para meu amadurecimento e preparo para desafios futuros. Dessa forma, minha evolução foi evidente ao longo desse processo, e tenho certeza de que essas competências serão valiosas tanto na carreira docente quanto no âmbito social e profissional.

 

Os relatos apresentados pelos supervisores evidenciam a relevância de apresentar e discutir, desde a formação inicial, os fundamentos da pedagogia libertadora de Paulo Freire. As experiências vivenciadas nas oficinas possibilitaram que compreendessem a docência e o processo de ensino-aprendizagem como práticas complexas, contínuas, reflexivas e essencialmente dialógicas. Ao articular esses saberes com a valorização do conhecimento prévio dos estudantes, os supervisores reconheceram que a atuação do monitor envolve dimensões éticas e humanas que ultrapassam o domínio técnico. Assim, a pedagogia freiriana mostra-se efetiva na constituição de sujeitos críticos, sensíveis e socialmente comprometidos, dentro e fora do espaço acadêmico.   

 

3.4 Reflexão final

 

A sistematização das oficinas de formação de monitores teve o intuito de promover uma formação integral do monitor. A organização da monitoria se baseou, portanto, nas competências (conhecimentos, habilidades e atitudes) coerentes com o ser, saber fazer e saber conviver inerentes à prática educativa e à docência.

   

Ao longo dos anos, fomos acrescentando e adaptando à estrutura das oficinas novos temas, textos e metodologias a fim de promover a reflexão crítica, atualização dos temas e acolher sugestões promovidas pelos monitores e supervisores.

   

Na formação dos monitores compartilhamos do pensamento de Paulo Freire que diz que:

 

“E não se diga que, se sou professor de biologia, não posso me alongar em considerações outras, que devo apenas ensinar biologia, como se o fenômeno vital pudesse ser compreendido fora da trama histórico-social, cultural e política”14.

   

No caso da disciplina de Histologia, podemos inferir que o estudo microscópico de células, tecidos e órgãos, não está dissociado da realidade do educando e do mundo. Não há por que se render ao conteudismo, impondo uma educação bancária no processo formativo e, consequentemente, negar ao monitor a sua criatividade e protagonismo. Nesse aspecto, visamos estimular e plantar uma semente no monitor, de que existe uma diferença abissal entre dar aulas e ser um educador. É entregar a semente de que a educação é o pilar de transformação do mundo.

   

A prática de monitoria deve ser vista como o desempenho de uma função ampla e não apenas confundido com um papel de auxiliar de professor. O monitor é um parceiro do professor e é importante no processo de ensino-aprendizagem sendo um agente ativo tanto na sua própria formação quanto como agente educador e facilitador do processo de ensino-aprendizagem do aluno.

 

4. Conclusão

 

A universidade é um espaço de formação. A atividade de monitoria deve seguir esse preceito e ampliar a visão do monitor no seu entendimento do mundo, da prática e da educação. A construção e a troca de saberes curiosos, dialógicos, amorosos e críticos trazem benefícios ao monitor, ao docente e aos alunos. A educação verdadeiramente libertadora estimula o educando a ter uma visão ampla do processo pedagógico e a ser um sujeito transformador crítico e ativo na sua sociedade, não se limitando a ser um mero transmissor de conteúdos e conhecimentos. É essa educação libertadora que almejamos.

 

Contribuições dos autores

 

Os autores declararam ter feito contribuições substanciais ao trabalho em termos da concepção ou desenho da pesquisa; da aquisição, análise ou interpretação de dados para o trabalho; e da redação ou revisão crítica de conteúdo intelectual relevante. Todos os autores aprovaram a versão final a ser publicada e concordaram em assumir a responsabilidade pública por todos os aspectos do estudo.

 

Conflito de interesses

 

Não foram declarados conflitos financeiros, legais ou políticos envolvendo terceiros (governo, empresas, fundações privadas, etc.) em qualquer aspecto do trabalho submetido, incluindo, mas não limitado a concessões e financiamento, participação em conselhos consultivos, desenho do estudo, preparação do manuscrito, análise estatística, etc.

 

Indexadores

                                   

A Revista Internacional de Educação e Saúde é indexada no DOAJ e EBSCO.

 

Referências

 

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