Revisão de literatura
Contribuições do ultrassom point-of-care (POCUS) na assistência de enfermagem intensivista: uma revisão integrativa / Contributions of point-of- care ultrasound (POCUS) in intensive care nursing: an integrative review
Flávia Almeida dos Santos1 (https://orcid.org/0009-0002-1207-2231)
Tássia Nery Faustino2 (https://orcid.org/0000-0001-7854-4540)
Nabila Monalisa Mendes Dantas Sales3 (https://orcid.org/0000-0002-1912-7859)
Vanessa Nascimento Batista4 (https://orcid.org/0009-0003-7691-6461)
Douglas de Souza e Silva5 (https://orcid.org/0000-0003-4476-7767)
1Contato para correspondência. Universidade do Estado da Bahia (Salvador). Bahia, Brasil. [email protected]
2-4Universidade do Estado da Bahia (Salvador). Bahia, Brasil.
5Universidade do Estado da Bahia (Guanambi). Bahia, Brasil.
RESUMO | OBJETIVO: Analisar a produção científica sobre as principais contribuições do uso do ultrassom point-of-care (POCUS) na assistência de enfermagem intensiva. MÉTODO: Revisão integrativa da literatura (período: fevereiro a julho de 2024), realizada por meio de pesquisa eletrônica nas bases de dados LILACS e PubMed, abrangendo estudos primários em texto completo nos quais o POCUS fosse realizado por enfermeiros, nos idiomas português e inglês. Foram seguidas as recomendações do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses. RESULTADOS: Foram encontrados 806 artigos; 11 foram incluídos neste estudo, em sua maioria publicados em 2022 (n=3) e em inglês (n=8). As principais contribuições do uso do POCUS na assistência de enfermagem foram: guia para a inserção e confirmação da localização de dispositivos invasivos (cateteres venosos e arteriais e sondas para alimentação); avaliação de alterações cardíacas e pleurais; mensuração de volume gástrico e vesical; e a prevenção, detecção e monitoramento de lesão por pressão. CONCLUSÃO: O uso do POCUS configura-se como uma ferramenta para a inserção e a confirmação da localização de dispositivos invasivos, bem como para a avaliação de alterações clínicas. Consolidando-se como uma prática inovadora que fortalece a autonomia e a segurança da enfermagem intensivista na assistência ao paciente crítico.
PALAVRAS-CHAVE: Cuidados de Enfermagem. Enfermagem. Ultrassonografia. Unidades de Terapia Intensiva.
ABSTRACT | OBJECTIVE: To analyze the scientific production on the main contributions of the use of point-of-care ultrasound (POCUS) in intensive nursing care. METHOD: Integrative literature review (period: February to July 2024), conducted through an electronic search in the LILACS and PubMed databases, covering primary studies in full text in which POCUS was performed by nurses, in Portuguese and English. The recommendations of the Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses were followed. RESULTS: A total of 806 papers were found; 11 were included in this study, mostly published in 2022 (n=3) and in English (n=8). The main contributions of using POCUS in nursing care were: guidance for the insertion and confirmation of the location of invasive devices (venous and arterial catheters and feeding tubes), assessment of cardiac and pleural changes, measurement of gastric and bladder volume, and the prevention, detection, and monitoring of pressure injuries. CONCLUSION: POCUS is established as a tool for inserting and confirming invasive device placement and assessing clinical changes. It is consolidating itself as an innovative practice that strengthens the autonomy and safety of intensive care nursing in the care of critically ill patients.
KEYWORDS: Nursing Care. Nursing. Ultrasound. Intensive Care Units.
Como citar este artigo: Santos FA, Faustino TN, Sales NMMD, Batista VN, Silva DS. Contribuições do ultrassom point-of-care (POCUS) na assistência de enfermagem intensivista: uma revisão integrativa. Rev Enferm Contemp. 2026;15:e6718. https://doi.org/10.17267/2317-3378rec.2026.e6718
Submetido 23 jan. 2026, Aceito 7 maio 2026, Publicado 11 jun. 2026
Rev. Enferm. Contemp., Salvador, 2026;15:e6718
https://doi.org/10.17267/2317-3378rec.2025.e6718
ISSN: 2317-3378
Editoras responsáveis: Cátia Palmeira, Tássia Macêdo
1. Introdução
A Unidade de Terapia Intensiva (UTI) é uma estrutura hospitalar considerada um ambiente de alta complexidade, destinada ao atendimento de pacientes em estado crítico de saúde que necessitam de intervenções específicas e de assistência especializada1. Este ambiente conta com uma equipe multiprofissional de cuidado assistencial, composta por profissionais de diversas categorias, entre eles, os profissionais de enfermagem. A equipe de enfermagem é formada por técnico de enfermagem e enfermeiro, responsáveis por estabelecer um cuidado individualizado, holístico e humanizado, e por prestar assistência direta durante todo o período de permanência do paciente neste ambiente2.
Dessa forma, no cotidiano deste setor, compete ao profissional enfermeiro a realização de diversas atividades de alta ou baixa complexidade, como a monitorização dos parâmetros hemodinâmicos, neurológicos e ventilatórios, bem como a administração de medicamentos e soluções, a realização de procedimentos invasivos e a avaliação e o acompanhamento do estado clínico do paciente. Torna-se, assim, imprescindível dispor de competência e segurança na prática do cuidado3.
Recentemente, os enfermeiros têm utilizado recursos tecnológicos para auxiliar a sua prática assistencial, principalmente no que diz respeito aos cuidados intensivos, que requerem maior vigilância clínica e monitorização contínua, contribuindo, desta forma, para uma análise rápida e precisa das condições clínicas4. Nesse cenário, essas tecnologias contribuem para uma avaliação clínica mais rápida, precisa e segura das condições de saúde. Entre esses recursos, destaca-se o uso do ultrassom point-of-care (POCUS), uma tecnologia que emprega radiação não ionizante, ou seja, de baixa frequência e baixa energia, permitindo a visualização de estruturas corporais por meio de ondas sonoras e, por isso, sendo considerado um exame seguro, indolor, econômico e não invasivo5.
No âmbito da enfermagem, o POCUS apresenta múltiplas aplicabilidades na prática clínica, como auxílio na execução do exame físico, na mensuração do volume urinário e do resíduo gástrico, e na punção de acessos venosos e arteriais6. Desta maneira, o enfermeiro tem respaldo legal para realizar este exame, desde que tenha capacitação específica, sendo proibida ao mesmo a emissão de laudo, bem como o uso desse recurso tecnológico para fins de diagnóstico7.
A utilização do POCUS no ambiente intensivo traz vantagens ao atendimento ao paciente e ao profissional, pois permite a aquisição de informações cruciais que servem de guia para a execução de procedimentos técnicos8. Colabora assim para uma maior autonomia do enfermeiro na tomada de condutas que visem o bem-estar e a segurança do paciente, além de permitir a qualificação do cuidado, uma vez que o uso desta ferramenta complementa a prática assistencial da Enfermagem9.
Diante da carência de estudos publicados que sintetizem as indicações de uso do POCUS na assistência de enfermagem ao paciente crítico, esta pesquisa justifica-se pela necessidade de fortalecer o embasamento científico que sustenta o uso dessa ferramenta na prática clínica, contribuindo para a qualificação da assistência, a redução de eventos adversos e a promoção de melhores desfechos em saúde10. Além disso, o estudo mostra-se relevante por investigar a utilização de um recurso tecnológico que contribui diretamente para as práticas avançadas em enfermagem visando ao estabelecimento de uma assistência de excelência e à obtenção de melhores resultados para pacientes, famílias e serviços de saúde2,8.
Ao evidenciar as potencialidades do POCUS, a pesquisa também favorece a ampliação do escopo de atuação do enfermeiro, alinhando-se às demandas contemporâneas por inovação, resolutividade e segurança nos serviços de saúde, e colaborando para o desenvolvimento de uma enfermagem cada vez mais tecnológica, crítica e baseada em evidências11. Nesse contexto, a pesquisa teve como objetivo analisar a produção científica sobre as principais contribuições do uso do POCUS na assistência de enfermagem intensiva.
2. Método
Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, conduzida de acordo com as recomendações propostas no Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA), adaptada para uma revisão integrativa12. Definiu-se como questão norteadora da pesquisa eletrônica: “Como o uso do POCUS pode colaborar com a assistência de enfermagem na Unidade de Terapia Intensiva?”. Para sua elaboração, utilizou-se a estratégia PICo13, em que o “P” (população) corresponde a pacientes críticos; o “I” (fenômeno de interesse), às contribuições do uso do POCUS; e o “Co” (contexto), à assistência de enfermagem na UTI.
Como critérios de elegibilidade, incluíram-se estudos primários disponíveis na íntegra, em português e em inglês, que abordassem o uso do POCUS por enfermeiros no ambiente da terapia intensiva, sem delimitação temporal. A inclusão de estudos primários justifica-se pela necessidade de reunir evidências empíricas diretamente relacionadas ao fenômeno investigado. A restrição de idioma foi adotada em função da viabilidade operacional e da adequada compreensão dos estudos. Foram excluídos teses, dissertações, artigos de opinião, editoriais, cartas ao editor e estudos de caso. Também foram excluídas publicações direcionadas às populações pediátricas e neonatais, considerando as especificidades fisiológicas, clínicas e assistenciais distintas daquelas do público adulto crítico, o que poderia comprometer a homogeneidade da análise.
O levantamento bibliográfico foi efetuado no período de fevereiro a julho de 2024, nas bases de dados Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE), via PubMed, e Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS). A escolha dessas bases justifica-se por sua ampla cobertura da literatura biomédica internacional e pela representatividade da produção científica da América Latina e do Caribe, respectivamente, o que permite contemplar tanto evidências globais quanto regionais relevantes para a prática da enfermagem.
Para a construção da estratégia de busca, utilizaram-se os Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e os Medical Subject Headings (MeSH), combinados com termos de linguagem natural por meio de operadores booleanos (AND e OR), visando ampliar a sensibilidade e o alcance da busca. Adotou-se a mesma estratégia de busca nas duas bases de dados escolhidas: Os descritores em português “Enfermagem” OR “Cuidados de Enfermagem” AND “Ultrassonografia” AND “Unidades de Terapia Intensiva” OR “Enfermagem em Cuidados Intensivos” OR “Cuidados Críticos” e os descritores em inglês “Nursing” OR “Nursing Care” AND “Ultrasonography” AND “Intensive Care Units” OR “Critical Care Nursing” OR “Critical Care”.
No processo de seleção dos estudos, utilizou-se o software Mendeley para a organização das referências e a plataforma Rayyan14 para a identificação e remoção de duplicatas. O processo de triagem foi realizado por dois revisores independentes, de forma cega, o que garantiu maior rigor metodológico e reduziu vieses na seleção dos estudos. Inicialmente, procedeu-se à leitura dos títulos e resumos, seguida da leitura na íntegra dos artigos potencialmente elegíveis. Em casos de discordância entre os revisores, as divergências foram resolvidas por consenso entre os dois avaliadores, mediante reanálise criteriosa dos critérios de elegibilidade.
A seleção final dos estudos foi realizada após a leitura completa dos textos e concluída em julho de 2024. Ressalta-se que também foi realizada a análise das citações presentes nos estudos incluídos e que, caso cumprissem os critérios de elegibilidade, os estudos correspondentes foram incluídos nesta revisão. Em seguida, realizou-se a extração dos dados por meio de um instrumento previamente elaborado, que contemplou informações como autores, ano de publicação, objetivo, método, principais resultados e conclusões.
No que se refere à avaliação da qualidade metodológica dos estudos incluídos, não foi adotado um checklist específico. Tal decisão fundamenta-se na natureza da revisão integrativa, que permite a inclusão de diferentes delineamentos metodológicos, priorizando a análise ampla do conhecimento produzido15. No entanto, procedeu-se à análise crítica dos estudos quanto à consistência metodológica, à clareza dos objetivos, à adequação dos métodos e à relevância dos achados para a prática da enfermagem.
Procedeu-se então com a interpretação e a sumarização dos achados, possibilitando a identificação das principais contribuições do POCUS na assistência de enfermagem intensivista, bem como das lacunas no conhecimento científico. Por fim, foram elaboradas as considerações finais, consolidando os principais resultados da revisão integrativa.
3. Resultados
Dos 806 estudos encontrados, 18 foram excluídos por duplicidade, restando 788 para leitura de títulos e resumos. Destes, 25 textos completos não foram identificados, o que resultou em 161 textos completos disponíveis para análise. Após essa etapa, nove publicações atenderam aos critérios de elegibilidade. Posteriormente, foram identificadas duas publicações a partir de citações em estudos já incluídos que atendiam aos critérios de elegibilidade. Ao final deste processo, foram incluídos 11 estudos. O processo de busca e seleção dos estudos desta revisão está apresentado na figura 1.
Figura 1. Fluxograma das etapas de identificação e seleção dos estudos para a revisão integrativa

Adaptado de: Page MJ, McKenzie JE, Bossuyt PM, Boutron I, Hoffmann TC, Mulrow CD, et al. The PRISMA 2020 statement: an updated guideline for reporting systematic reviews. BMJ. 2021;372:n71.12
O quadro 1 sumariza a caracterização dos 11 artigos selecionados, em sua maioria publicados em 2022 (n=3) [E6, E7, E8], no idioma inglês (n=8) [E1-E5, E8, E9, E11]. No que se refere à grande área de publicação dos estudos, quase a totalidade dos manuscritos foi publicada em periódicos da área médica (n=7) [E2, E3-E5, E7, E8, E11], seguida pelos periódicos de enfermagem (n=4) [E1, E6, E9, E10].
Quanto à finalidade do uso do POCUS, pode-se observar uma grande variedade de aplicações clínicas, dentre elas destaca-se a prevenção, detecção e monitoramento de lesão por pressão em pacientes em risco [E2]; prevenção de infecções de trato urinário associadas a cateter (ITUAC) e cateterismos desnecessários [E1]; mensuração do resíduo urinário após remoção do cateter vesical de demora [E10]; punção e canulação da artéria radial em pacientes em choque [E3, E5]; avaliação do volume residual gástrico e do posicionamento da sonda nasogástrica [E8]; inserção de sonda nasogastrojejunal [E4]; localização da sonda nasoenteral [E6]; punção de acesso venoso periférico em pacientes com dificuldade de acesso venoso [E7, E11]; e avaliação de alterações cardíacas e pleurais [E9].
Quadro 1. Caracterização das publicações incluídas na revisão integrativa da literatura

POCUS - Point-of-Care Ultrasound.
Quanto às características dos estudos analisados, houve uma variedade de produções internacionais (n=5) [E1, E5, E8, E9, E11], porém o Brasil teve o maior número de registros (n=3) [E6, E7, E10]; os desenhos de pesquisa mais utilizados foram os estudos do tipo transversal (n=4) [E6, E8, E9, E10], seguidos dos estudos descritivos (n=3) [E1, E2, E7]. Relacionado ao cenário de estudo, nota-se que a maioria dos artigos teve como locus de pesquisa a UTI Geral (n=4) [E5, E6, E8, E10] e a UTI Neurológica (n=2) [E1, E2] (Quadro 2).
No que tange às contribuições do POCUS para a assistência de enfermagem intensivista, percebe-se que o uso dessa ferramenta possibilita a visualização da rede venosa, resultando em sucesso na inserção de acesso venoso periférico em pacientes com dificuldade de punção (n=2) [E7, E11], reduzindo o sofrimento do paciente e o risco de complicações, além de influenciar de forma benéfica a gestão do tempo e a satisfação profissional dos enfermeiros (n=2) [E7, E11]. Associadamente, verificou-se que dois estudos relataram o uso dessa tecnologia para a canulação da artéria radial, contribuindo para o seu sucesso [E5] e para a redução do tempo do procedimento e do risco de complicações associadas [E3, E5].
Quadro 2. Resultados encontrados nas publicações incluídas na revisão integrativa da literatura

Três artigos [E4, E6, E8] apresentaram resultados positivos ao avaliarem o uso do POCUS como guia para a inserção de sonda nasogastrojejunal, para a determinação da localização da sonda nasogástrica e nasoenteral, bem como para a mensuração do volume residual gástrico. Duas publicações avaliaram o uso do ultrassom para identificar possíveis alterações no sistema geniturinário [E1, E10]. Uma única produção [E9] citou que enfermeiros intensivistas devidamente capacitados podem utilizar o POCUS para avaliação da veia cava superior e das cavidades pleurais e pericárdicas e o estudo E2 indicou que modificações na densidade da camada dérmica ou hipodérmica identificadas pela ultrassonografia traduzem inflamação tecidual causada pela privação de oxigênio e outros nutrientes
4. Discussão
Esta revisão integrativa sintetizou os resultados de 11 estudos sobre as contribuições do POCUS à assistência de enfermagem intensivista, identificando a ampla aplicabilidade clínica desse recurso tecnológico. O profissional enfermeiro que tenha capacitação específica em ultrassonografia pode realizar o exame à beira do leito, tendo em vista que esse instrumento serve como apoio na realização de cuidados assistenciais de maior complexidade técnica, configurando-se, desta forma, como uma inovação na prática de enfermagem7.
Um total de quatro estudos [E3, E5, E7, E11]18,20,22,26 descreveram uso do POCUS como guia para punção de veias e artérias. Sabe-se que pacientes críticos estão suscetíveis a situações de choque e, nesses casos, seus parâmetros hemodinâmicos se tornam instáveis, sendo preciso uma monitorização contínua da pressão arterial, assim como a coleta seriada de gases sanguíneos e dosagem do lactato, o que é proporcionado pela introdução de um cateter em uma artéria27. O enfermeiro capacitado está autorizado a realizar o procedimento de punção arterial para os fins descritos, podendo, assim, utilizar POCUS como subsídio para essa prática28.
Estudos indicam que o uso do POCUS é uma prática promissora para a punção venosa, principalmente em indivíduos com dificuldade de visualização da rede venosa, como pacientes geriátricos, desidratados e/ou com fragilidade capilar, pois permite ao profissional visualizar a localização exata do vaso sanguíneo e selecionar a veia com diâmetro e comprimento adequados11,29. Complementando, outras publicações relatam que o uso dessa ferramenta minimiza possíveis complicações ocasionadas pelo excesso de tentativas, permitindo a visualização em tempo real da área puncionada, aumentando assim as taxas de sucesso do procedimento na primeira tentativa22,26.
Um
estudo realizado em uma UTI Geral no Brasil menciona que a ultrassonografia da
bexiga realizada por enfermeiro, por meio de POCUS, pode ser considerada um
complemento do exame físico, sendo útil na mensuração do volume urinário,
favorecendo, assim, a detecção precoce da retenção urinária, caracterizada pelo
acúmulo de urina acima de 400 ml em adultos25. Associadamente, outro
estudo relata que o uso desse recurso pode ajudar o enfermeiro na análise da
diurese, contribuindo para a avaliação da necessidade de realização do
cateterismo vesical, visto que o uso desse dispositivo de maneira
indiscriminada ou prolongada aumenta o risco de infecções, lesão ou estenose
uretral e hematúria30. Desta
forma, o POCUS é uma ferramenta eficaz na avaliação do volume urinário e reduz
substancialmente o uso do cateter vesical de demora (CVD), assim como permite
determinar quais pacientes têm real indicação para a sua inserção e qual o
momento adequado para realizar um cateterismo vesical de alívio25,30.![]()
Além
do sistema urinário, estudos têm abordado outras áreas de aplicação do POCUS.
Por exemplo, um estudo realizado na Noruega mostrou que a utilização do POCUS
para avaliação de cardíacas durante exame físico24. Essa avaliação
permite a identificação precoce de alterações relevantes, como derrame pleurais
e pericárdicas, mesmo antes das mudanças nos sinais vitais. Desta forma, a
aplicação do POCUS favorece assim o monitoramento contínuo e a decisão em
conjunta com a equipe médica sobre a drenagem local imediata24.![]()
A
utilização do POCUS é considerada uma prática segura, inovadora e eficaz para
enfermeiros de UTI na avaliação do volume residual gástrico e do posicionamento
da sonda nasogástrica, pois permite o monitoramento da tolerância nutricional,
prevenção de regurgitação e a detecção do risco de broncoaspiração23.
Tendo em vista que pacientes críticos possuem maior risco de
broncoaspiração devido à redução da motilidade gastrointestinal, evolução com
disfagia e/ou refluxo esofágico, assim como o uso de dieta enteral, da
ventilação mecânica invasiva e uso de medicamentos depressores do sistema
nervoso central, a verificação do volume gástrico residual torna-se importante,
contribuindo para a vigilância assistencial no cenário intensivo31,32.![]()
![]()
Atualmente,
o POCUS tem sido utilizado como alternativa para verificar o posicionamento da
sonda nasoenteral19,21,23. Essa alternativa permite a avaliação em
tempo real do trajeto do dispositivo, sem necessidade de deslocamento do
paciente ou exposição à radiação19,21. Embora a radiografia
permaneça como exame padrão-ouro para confirmação de posicionamento das sondas
gastrointestinais21.![]()
Além
disso, sabe-se que os indivíduos internados na UTI geralmente são submetidos
diariamente a radiografia da região torácica para verificar o posicionamento do
tubo orotraqueal, e que o uso constante e a longo prazo da radiação ionizante
podem levar ao surgimento de complicações, como danos a órgãos e tecidos e
mutações genéticas33. Desta
forma, percebe-se que o uso do POCUS é um método em ascensão no âmbito
assistencial intensivo e que, além de ser útil na verificação do posicionamento
da sonda nasoenteral, poderá guiar a sua inserção34.![]()
![]()
Um estudo descritivo e longitudinal realizado em UTI com diferentes perfis (respiratória, cirúrgica de trauma e neurológica) evidencia o uso do POCUS para a prevenção, detecção e monitoramento da lesão por pressão em pacientes em risco. Essa ferramenta inovadora no âmbito assistencial permite assim a identificação precoce de alterações teciduais antes mesmo que os sinais clínicos sejam visíveis17.
Para
além das aplicabilidades clínicas encontradas nesta revisão de literatura, o
POCUS apresenta outras funcionalidades para a enfermagem no ambiente intensivo,
como a mensuração da bainha do nervo óptico, possibilitando a avaliação da
pressão intracraniana, uma vez que o monitoramento contínuo desse parâmetro
cerebral é importante em pacientes neurocríticos, a exemplo daqueles com
traumatismo cranioencefálico35.![]()
Ademais,
a utilização dessa ferramenta pode ser útil para identificar causas reversíveis
da parada cardiorrespiratória, como tamponamento cardíaco, pneumotórax
hipertensivo, hipovolemia e embolia pulmonar maciça. Embora, a literatura
aponte que o uso dessa tecnologia pode ser contraindicado nessa situação
clínica crítica, tendo em vista o potencial risco de interferir na qualidade e
na continuidade das manobras de reanimação cardiopulmonar36.![]()
O
POCUS pulmonar também é um instrumento eficiente na avaliação da volemia em
pacientes com lesão renal aguda (LRA) e na identificação do diagnóstico de
enfermagem de excesso de líquidos, evidenciado por congestão pulmonar detectada
por achados ultrassonográficos37.![]()
Assim, diante da ampla variedade de aplicações clínicas do POCUS, é importante enfatizar que o uso desse recurso na UTI pelos enfermeiros intensivistas só será possível com a disponibilização desses equipamentos nesse cenário de cuidado, assim como com a capacitação contínua acerca das indicações, técnica e interpretação das imagens fornecidas por essa tecnologia, garantindo, assim, o seu emprego assertivo e seguro29.
Como limitações desta pesquisa de revisão, ressalta-se que a realização da busca eletrônica em apenas duas bases de dados pode ter limitado a abrangência na identificação de estudos relevantes, o que pode ter potencializado o risco de viés de seleção. Além disso, a escassez de publicações internacionais sobre o uso do POCUS por enfermeiros evidencia uma lacuna científica, o que impacta diretamente a consistência das evidências disponíveis. Ademais, os critérios de inclusão adotados, como a restrição aos idiomas português e inglês e a delimitação da população adulta, podem ter contribuído para a exclusão de pesquisas potencialmente relevantes. Do mesmo modo, a exclusão da literatura cinzenta também constitui uma limitação, ao restringir o acesso a evidências complementares não indexadas em bases de dados tradicionais.
Quanto às contribuições dessa revisão, nota-se que essa ferramenta tecnológica permite auxílio direto na execução de procedimentos invasivos como canulação venosa e/ou arterial18,20,22,26,38,39, inserção de sondas intestinais e confirmação do posicionamento de dispositivos19,21,23,31,32. Desta maneira atua como complemento do exame físico, contribuindo diretamente para o reconhecimento de possíveis alterações clínicas, servindo então como apoio na avaliação e diagnóstico de enfermagem e na construção de planos de cuidados individualizados, almejando assim a promoção da segurança do paciente e qualificação do cuidado10.
5. Considerações finais
Esta revisão integrativa da literatura evidenciou múltiplas contribuições do uso do POCUS na assistência de enfermagem intensivista, incluindo o manejo de dispositivos invasivos e a avaliação clínica do paciente crítico. Associadamente, o uso do POCUS reduz o tempo de punção dos vasos sanguíneos e as complicações associadas a procedimentos invasivos. Esses achados podem contribuir para maior segurança e satisfação do profissional e do paciente.
Desta forma, percebe-se que o uso do POCUS no ambiente da terapia intensiva configura-se como um instrumento inovador, pois traz benefícios para o estabelecimento de um cuidado assistencial de maior qualidade, ao mesmo tempo em que proporciona maior autonomia e segurança ao profissional na tomada de decisões complexas. Ademais, é relevante enfatizar que a educação permanente deve ser a ferramenta crucial para disseminar a importância e o uso desse recurso tecnológico para o avanço da prática de enfermagem. Por fim, foi possível perceber que são necessários mais estudos sobre a temática, principalmente pesquisas de campo voltadas à exploração de possíveis áreas em que o POCUS possa ser utilizado pelo enfermeiro na assistência ao paciente crítico.
Contribuições dos autores
Os autores declararam ter feito contribuições substanciais ao trabalho em termos da concepção ou desenho da pesquisa; da aquisição, análise ou interpretação de dados para o trabalho; e da redação ou revisão crítica de conteúdo intelectual relevante. Todos os autores aprovaram a versão final a ser publicada e concordaram em assumir a responsabilidade pública por todos os aspectos do estudo.
Conflitos de interesses
Nenhum conflito financeiro, legal ou político envolvendo terceiros (governo, empresas e fundações privadas, etc.) foi declarado para nenhum aspecto do trabalho submetido (incluindo, mas não se limitando a subvenções e financiamentos, participação em conselho consultivo, desenho de estudo, preparação de manuscrito, análise estatística, etc.).
Indexadores
A Revista Enfermagem Contemporânea é indexada no DOAJ e EBSCO.
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