Artigo original
Uso de psicoestimulantes farmacológicos entre jovens em contexto festivo / The use of pharmacological psychostimulants among young people in a festive context
Letícia Cerqueira Prado Silva1 (https://orcid.org/0009-0006-2069-1672)
Tâmara da Cruz Piedade Oliveira2 (https://orcid.org/0000-0002-3462-4861)
1Contato para correspondência. Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública (Salvador). Bahia, Brasil. [email protected]
2Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública (Salvador). Bahia, Brasil.
PALAVRAS-CHAVE: Uso Recreativo de Drogas. Adulto Jovem. Dimesilato de Lisdexanfetamina. Metilfenidato. Automedicação.
KEYWORDS: Recreational Drug Use. Young Adult. Lisdexamfetamine Dimesylate. Methylphenidate. Self-Medication.
Como citar este artigo: Silva LCP, Oliveira TCP. Uso de psicoestimulantes farmacológicos entre jovens em contexto festivo. Rev Enferm Contemp. 2026;15:e6732. https://doi.org/10.17267/2317-3378rec.2026.e6732
Submetido 3 fev. 2026, Aceito 26 mar. 2026, Publicado 29 maio 2026
Rev. Enferm. Contemp., Salvador, 2026;15:e6732
https://doi.org/10.17267/2317-3378rec.2026.e6732
ISSN: 2317-3378
Editora responsável: Cátia Palmeira, Tássia Macêdo
Trata-se de uma pesquisa de caráter exploratório, com abordagem qualitativa, realizada no município de Salvador, Bahia. A população do estudo foi composta por jovens que relataram o uso de metilfenidato ou lisdexanfetamina em contextos festivos. A opção pelo delineamento exploratório mostrou-se adequada por possibilitar maior familiaridade com o fenômeno investigado, contribuindo para torná-lo mais explícito e compreensível, bem como para aprofundar a compreensão acerca das práticas de uso de psicoestimulantes em contextos festivos. Ademais, a abordagem qualitativa permitiu explorar dimensões subjetivas, sociais e culturais relacionadas a esse padrão de consumo7.
A coleta de dados ocorreu entre os meses de março e maio de 2025, por meio de entrevistas semiestruturadas, conduzidas a partir de um roteiro composto por dois blocos temáticos: (1) características sociodemográficas dos participantes e (2) questões abertas norteadoras voltadas à compreensão do uso de psicofármacos estimulantes em contextos festivos.
A seleção dos participantes foi realizada por meio da técnica de amostragem em cadeia, do tipo “bola de neve”. Inicialmente, foram identificados informantes-chave a partir da rede de contatos pessoais das pesquisadoras, os quais indicaram outros potenciais participantes com o perfil requerido, que, por sua vez, também indicaram novos contatos. Foram adotados como critérios de inclusão: ter utilizado psicofármacos estimulantes em contexto festivo ao menos uma vez na vida e possuir idade entre 18 e 29 anos. Como critérios de exclusão, estabeleceram-se: o uso de psicoestimulantes exclusivamente para fins de estudo ou trabalho e mediante prescrição médica.
As entrevistas foram realizadas de forma presencial ou remota, conforme a preferência dos participantes. O convite inicial ocorreu por meio de contato via aplicativo WhatsApp, ocasião em que foi encaminhado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) para leitura prévia. Após a manifestação de interesse, foram agendados data, horário e local para a realização das entrevistas, de acordo com a disponibilidade de cada participante.
As entrevistas presenciais ocorreram em locais escolhidos pelos próprios participantes, com vistas a garantir privacidade e conforto, sendo o deslocamento realizado pela pesquisadora. As entrevistas tiveram duração média de 30 minutos e foram gravadas com o auxílio de dois dispositivos móveis. Posteriormente foram transcritas na íntegra, preservando-se os termos e expressões utilizados pelos participantes. A análise dos dados foi conduzida segundo a técnica de análise temática de conteúdo proposta por Minayo, compreendendo as seguintes etapas: (1) pré-análise, com leitura flutuante do material; (2) exploração do material, com identificação das unidades de contexto e construção das categorias analíticas; e (3) tratamento dos resultados, com síntese interpretativa dos achados8.
O estudo foi desenvolvido em conformidade com os preceitos éticos estabelecidos pela Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde, que dispõe sobre pesquisas envolvendo seres humanos. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, sob o CAAE nº 85923225.0.0000.5544.
A população do estudo foi composta por 12 jovens, com idades entre 23 e 29 anos e média etária de 26,7 anos. Observou-se predominância do sexo masculino (10 participantes), enquanto dois eram do sexo feminino, sendo que todos se autodeclararam cisgênero. Quanto à cor/raça autodeclarada, sete participantes se identificaram como brancos, dois como amarelos e três como pardos.
Em relação à escolaridade, cinco participantes possuíam ensino superior completo, sendo que um deles referiu também formação em nível de especialização; três participantes informaram estar cursando o ensino superior no momento da pesquisa e quatro apresentavam ensino médio completo. No que se refere à renda mensal, seis participantes relataram rendimentos entre três e seis salários mínimos, três até três salários mínimos e três acima de seis salários mínimos. Todos os participantes relataram ter usado dimesilato de lisdexanfetamina, enquanto apenas dois referiram ter utilizado o metilfenidato em contexto festivo.
Os resultados das entrevistas foram organizados em duas categorias analíticas: (1) Primeiro contato e vias de acesso: contextos de iniciação ao uso de psicoestimulantes em festas; e (2) Entre alertas e precauções: efeitos adversos e práticas de gestão do uso.
Em relação à forma de aquisição dos medicamentos, os relatos evidenciaram que o acesso ocorre principalmente de forma informal, por meio de amigos que possuem prescrição ou que repassam contatos de farmácias que vendem sem receita. Alguns participantes relataram ter recebido os medicamentos diretamente em festas, de forma gratuita ou por compra direta a terceiros no próprio ambiente celebrativo.
Sempre me oferecem em festa, é algo que hoje em dia todo mundo tá usando (E6).
Geralmente alguém tem em festa e me dá, ou antes de ir pra alguma festa, eu peço um comprimido pra algum amigo que eu sei que tem e levo comigo pra tomar na hora (E7).
Na primeira vez que eu tomei, um amigo me ofereceu. Mas depois de um tempo comecei a comprar em festa mesmo. Tem gente que vende o comprimido (E11).
Quanto à primeira experiência com o uso desses medicamentos em festas, a maioria descreveu efeitos positivos como aumento da energia, euforia, resistência física prolongada, melhora no humor e sensação de controle da embriaguez. Foi recorrente o relato de que, ao consumir os psicoestimulantes, os participantes bebiam menos álcool, mas sentiam os efeitos da festa de forma mais intensa. Esse padrão sugere uma funcionalidade atribuída ao medicamento, como possível potencializador da vivência prazerosa festiva.
“Experiência incrível, repetiria por mais vezes, ajuda bastante a controlar o nível de embriaguez” (E1).
“Rapaz, eu tava eufórico, a vida era linda, falava demais com todo mundo, energia infinita” (E12).
“Muito boa, senti que eu tinha energia pra mil horas de festa. E de certa forma é até econômico, não precisei ficar comprando bebida toda hora pra me animar” (E11).
3.2 Entre alertas e precauções: efeitos adversos e práticas de gestão do uso
Apesar da predominância de relatos positivos, alguns participantes descreveram efeitos colaterais significativos. Entre os efeitos indesejados mais citados estão insônia prolongada, sudorese excessiva, sensação de pressão baixa e necessidade de uso de medicamentos ansiolíticos para reverter o estado de excitação. Tais efeitos, embora não tenham afastado os participantes do uso, foram reconhecidos como sinais de alerta, principalmente quando associados ao uso frequente ou em dosagens elevadas.
“Uma vez ao utilizar 2 venvanses de 70mg suei frio e senti a pressão baixa” (E1).
“(Efeito) Indesejado de passar mal, não. Mas eu fiquei quase dois dias sem conseguir dormir, tive que tomar Rivotril” (E6).
“Na festa, no meio da loucura, não. Só depois, no dia seguinte que não consegui dormir e na segunda-feira fui virado pro trabalho” (E12).
Quando questionados sobre os cuidados relacionados ao uso dos medicamentos, muitos demonstraram algum grau de conhecimento sobre os riscos, especialmente sobre a mistura com álcool e o potencial de dependência. No entanto, esse conhecimento não se refletiu, na maioria dos casos, em práticas de prevenção efetiva. Alguns entrevistados relataram adotar estratégias subjetivas de controle, como limitar a quantidade de comprimidos ou restringir o uso a ocasiões especiais, embora também admitissem que essas práticas não são seguidas de forma sistemática.
“Não tenho muito, porque às vezes uso com álcool. Mas conheço os cuidados e evito tomar em excesso” (E2).
“O que eu sei é que é usado para quem tem diagnóstico de TDAH, não se deve automedicar, mas um cuidado a se tomar é não tomar uma quantidade maior do que precisa, e tomar cuidado para não se viciar, por que tem gente que vive a base disso todo dia, muitos médicos inclusive, e quando para de usar já soube que tem um efeito rebote no primeiro momento, já que o corpo estava acostumado com a energia e foco lá em cima” (E3).
“A única coisa que eu sei é que não pode tomar com álcool, mas todo mundo toma e nunca vi acontecer nada com ninguém” (E7).
A análise dos depoimentos dos doze participantes entrevistados revela nuances importantes sobre o uso de psicoestimulantes farmacológicos. Os dados coletados apontam para um padrão comum de uso recreativo associado ao desejo de prolongar a energia, aumentar o estado de alerta e reduzir os efeitos inibidores do álcool durante festas. Desse modo, esses medicamentos, originalmente destinados ao tratamento do TDAH, têm sido ressignificados em espaços sociais como potenciadores do desempenho festivo e do prazer, mesmo entre indivíduos que não possuem prescrição médica.
A predominância de jovens autodeclarados brancos pode ser compreendida à luz das desigualdades raciais que atravessam o acesso a bens, serviços e práticas de consumo no contexto brasileiro. A literatura atual evidencia que o uso de psicoestimulantes farmacológicos entre jovens é influenciado por fatores socioeconômicos, raciais e educacionais, sendo mais prevalente entre jovens brancos inseridos no ensino superior9,10. A predominância de participantes de estratos socioeconômicos mais favorecidos também pode estar relacionada ao elevado custo desses medicamentos, especialmente no mercado sem prescrição médica. Além disso, normas de gênero influenciam a percepção e o manejo dos riscos, com homens tendendo a minimizá-los, o que pode favorecer comportamentos de risco em contextos festivos sem comprometer a adesão ao consumo como estratégia de sociabilidade e desempenho11.
Cabe destacar aqui que, embora a associação com a bebida alcoólica tenha sido frequentemente referida pelos participantes, estes apontam para o uso dos fármacos enquanto estratégia para redução do consumo de álcool. Nesse sentido, estudos recentes mostram que o consumo de álcool entre jovens adultos tem apresentado tendência de redução em diversos contextos socioculturais, em comparação a gerações anteriores. Essa queda tem sido atribuída a fatores como maior conscientização sobre os riscos à saúde associados à substância, mudanças nas normas sociais de socialização e maior valorização de estilos de vida mais saudáveis, refletindo uma mudança de comportamento epidemiológico na juventude contemporânea12.
A facilidade de acesso aos psicofármacos reflete aspectos socioculturais contemporâneos resultantes da combinação entre fiscalização insuficiente, políticas fragmentadas que favorecem a comercialização irregular desses medicamentos e a expansão da prática da automedicação¹3. Esses elementos articulam-se, ainda, ao fenômeno da medicalização da vida, por meio do qual dimensões sociais, culturais e subjetivas da existência passam a ser progressivamente enquadradas como objetos de intervenção biomédica. Nesse contexto, os psicofármacos passam a ocupar lugar central como recursos para ampliar a produtividade, aumentar a resistência física e promover sensações de bem-estar em diferentes contextos de socialização, incluindo o lazer e as festas14. É nesse cenário que se inscrevem as experiências subjetivas relatadas pelos participantes, cujas narrativas enfatizam sensações positivas, reproduzindo um discurso de otimização do corpo característico de contextos contemporâneos marcados por elevadas exigências de desempenho, produtividade e aparência15.
Nesse processo de ressignificação do uso, os psicoestimulantes farmacológicos passam a ocupar um lugar ambíguo nos contextos festivos, situando-se em uma zona limítrofe entre medicamento e substância recreativa. À medida que seu consumo se desvincula da finalidade terapêutica e se orienta prioritariamente pela produção de efeitos desejados, esses fármacos passam a ser incorporados às dinâmicas de consumo típicas de festas e eventos sociais, aproximando-se das lógicas que organizam o uso de outras drogas psicoativas3,6.
Nessa perspectiva, o estatuto simbólico do medicamento é progressivamente reconfigurado, cedendo espaço à experiência coletiva do uso, mediada por pares, normas informais de circulação e expectativas de desempenho social, o que contribui para a banalização dos riscos e para a naturalização do consumo não terapêutico10,16. Ademais, é importante considerar que o uso não prescrito desses psicoestimulantes está associado à ocorrência de efeitos adversos, como insônia, taquicardia, ansiedade, irritabilidade e risco de dependência, especialmente quando combinados ao álcool, o que reforça a necessidade de problematização e alerta quanto aos riscos dessa prática10,17.
Desse modo, o uso de psicoestimulantes farmacológicos em contextos festivos entre jovens não pode ser compreendido apenas como uma prática individual ou desviante, mas como um fenômeno socialmente produzido, inscrito em dinâmicas contemporâneas que articulam medicalização da vida, cultura do desempenho e valorização da produtividade do corpo. Tal contexto desafia abordagens tradicionais centradas exclusivamente no modelo biomédico ou normativo, exigindo leituras que considerem os contextos socioculturais nos quais essas práticas se constroem e se legitimam.
Entre as limitações do presente estudo, destaca-se o uso da técnica bola de neve, que, embora eficaz para alcançar participantes de difícil acesso, pode introduzir um viés de seleção e reduzir a diversidade da amostra, o que deve ser considerado na interpretação dos achados e na extrapolação dos resultados para outros contextos.
Este estudo evidenciou que o uso de psicoestimulantes farmacológicos em contextos festivos entre jovens ocorre predominantemente de forma recreativa, associado ao desejo de prolongar a energia, aumentar o estado de alerta e intensificar a experiência festiva, frequentemente em concomitância com o consumo de álcool. Medicamentos originalmente indicados para o tratamento do Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) têm sido ressignificados como potenciadores do desempenho social e do prazer, com acesso majoritariamente por vias informais, mediadas por redes de amigos.
A caracterização sociodemográfica da amostra revelou predominância de homens jovens, autodeclarados brancos, com escolaridade média a elevada e renda em faixas intermediárias, evidenciando a influência de determinantes sociais no acesso e na normalização do uso não terapêutico de psicoestimulantes. As narrativas apontaram ainda uma lógica de “uso consciente”, baseada em estratégias subjetivas de controle que não se traduzem em práticas efetivas de prevenção, sobretudo diante do uso concomitante com álcool.
Conclui-se que o uso recreativo de psicoestimulantes em contextos festivos constitui um fenômeno complexo, permeado por dimensões sociais, culturais e individuais. A banalização do consumo e a fragilidade na percepção dos riscos reforçam a necessidade de políticas públicas, ações de conscientização e intervenções educativas voltadas à redução de danos, bem como estratégias de cuidado, especialmente no campo da enfermagem, que promovam o uso racional de medicamentos e a proteção da saúde coletiva.
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