Artigo original
Coisa de favela: cultura, saúde mental e protagonismo de moradores de Manguinhos / Una cosa de favela: cultura, salud mental y el protagonismo de los habitantes de Manguinhos / A favela thing: culture, mental health, and the protagonism of Manguinhos residents
Silvia Monnerat1 (https://orcid.org/0000-0003-1466-6885)
Bruna Vanessa Dantas Ribeiro2 (https://orcid.org/0000-0003-2208-1270)
Franciele Campos3 (https://orcid.org/0000-0001-9895-5750)
Paul Heritage4 (https://orcid.org/0000-0001-7432-5404)
Ana Paula de Freitas Guljor5 (https://orcid.org/0000-0003-1952-6064)
Paulo Amarante6 (https://orcid.org/0000-0001-6778-2834)
1Contato para correspondência. Fundação Getúlio Vargas (Rio de Janeiro). Rio de Janeiro, Brasil. [email protected]
2People’s Palace Projects do Brasil (Rio de Janeiro). Rio de Janeiro, Brasil. [email protected]
3,5,6Fundação Oswaldo Cruz (Rio de Janeiro). Rio de Janeiro, Brasil. [email protected], [email protected], [email protected]
4Queen Mary University of London. Londres, Inglaterra. [email protected]
RESUMO | OBJETIVO: Tendo como objetivo refletir sobre uma experiência de pesquisa realizada entre 2021 e 2022 e intitulada Estratégias culturais como alternativas de inclusão social de populações vulnerabilizadas no campo das políticas públicas sobre saúde mental: estudo de caso na comunidade de Manguinhos, o presente artigo analisa os caminhos metodológicos que sustentaram o desenvolvimento do projeto. Neste artigo analisamos as escolhas de pesquisa e explicitamos o desenvolvimento do processo de mapeamento de experiências socioculturais realizado no conjunto de favelas de Manguinhos (RJ). MÉTODO: Desenvolvendo uma metodologia de coparticipação juntamente com pesquisadores do território, a equipe de pesquisa buscou interpretar as ações culturais mapeadas como dispositivos privilegiados de cuidado, inclusão social e construção de direitos. Este artigo reflete sobre o impacto destas estratégias na vida da comunidade, nos modos de resistência e de produção de saúde mental, além de sua importância na construção de práticas de solidariedade e cidadania através do protagonismo de artistas, produtores e criadores culturais. RESULTADOS: A pesquisa teve como resultado uma aproximação com os produtores culturais de Manguinhos, através de rodas de conversa e a produção de um catálogo com 40 iniciativas presentes neste território. O mapeamento permitiu conhecer o que fazem e como fazem, o papel político e social dessas atividades e grupos culturais e como repercutem na vida da comunidade. CONCLUSÃO: Concluímos que estas iniciativas são importantes dispositivos de protagonismo dos moradores, promoção de saúde mental e produção de redes de sociabilidade, subjetividades e cidadania.
PALAVRAS-CHAVE: Cultura. Arte e Sociedade. Saúde Mental na Comunidade. Projetos Sociais.
RESUMEN | OBJETIVO: Con el objetivo de reflexionar sobre una experiencia de investigación realizada entre 2021 y 2022 y titulada Estrategias culturales como alternativas de inclusión social de poblaciones vulnerabilizadas en el campo de las políticas públicas de salud mental: estudio de caso en la comunidad de Manguinhos, este artículo analiza los caminos metodológicos que sustentaron el desarrollo del proyecto. En este artículo examinamos las elecciones de investigación y explicitamos el desarrollo del proceso de mapeo de experiencias socioculturales realizado en el conjunto de favelas de Manguinhos (RJ). MÉTODO: Desarrollando una metodología de coparticipación junto con investigadores del territorio, el equipo de investigación buscó interpretar las acciones culturales mapeadas como dispositivos privilegiados de cuidado, inclusión social y construcción de derechos. Este artículo reflexiona sobre el impacto de estas estrategias en la vida de la comunidad, en los modos de resistencia y producción de salud mental, además de su importancia en la construcción de prácticas de solidaridad y ciudadanía a través del protagonismo de artistas, productores y creadores culturales. RESULTADOS: La investigación tuvo como resultado un acercamiento a los productores culturales de Manguinhos, por medio de ruedas de conversación y la elaboración de un catálogo con 40 iniciativas presentes en este territorio. El mapeo permitió conocer qué hacen y cómo lo hacen, el papel político y social de estas actividades y grupos culturales y cómo repercuten en la vida de la comunidad. CONCLUSIÓN: Concluimos que estas iniciativas son importantes dispositivos de protagonismo de los residentes, promoción de la salud mental y producción de redes de sociabilidad, subjetividades y ciudadanía.
PALABRAS CLAVE: Cultura. Arte y Sociedad. Salud Mental Comunitaria. Proyectos Sociales.
ABSTRACT | OBJECTIVE: Aiming to reflect on a research experience conducted between 2021 and 2022 and titled Cultural strategies as alternatives for the social inclusion of vulnerable populations within public policies on mental health: A case study in the Manguinhos community, this article analyzes the methodological pathways that supported the development of the project. In this article, we examine the research choices and detail the development of the mapping process of sociocultural experiences carried out in the Manguinhos favela complex (RJ). METHOD: By developing a co-participatory methodology together with researchers from the territory, the research team sought to interpret the mapped cultural actions as privileged mechanisms for care, social inclusion, and the construction of rights. This article reflects on the impact of these strategies on community life, on modes of resistance and mental-health production, and on their importance in building practices of solidarity and citizenship through the agency of artists, producers, and cultural creators. RESULTS: The research resulted in closer engagement with cultural producers in Manguinhos through conversation circles and the creation of a catalog featuring 40 initiatives present in this territory. The mapping made it possible to learn what they do and how they do it, the political and social role of these cultural activities and groups, and how they affect the life of the community. CONCLUSION: We conclude that these initiatives are important mechanisms for resident protagonism, the promotion of mental health, and the production of sociability networks, subjectivities, and citizenship.
KEYWORDS: Culture. Art and Society. Community Mental Health. Social Projects.
Como citar este artigo: Monnerat, S., Ribeiro, B. V. D., Campos, F., Heritage, P., Guljor, A. P. F., & Amarante, P. (2026). Coisa de favela: Cultura, saúde mental e protagonismo de moradores de Manguinhos. Revista Psicologia, Diversidade e Saúde, 15, e6373. https://doi.org/10.17267/2317-3394rpds.2026.e6373
Submetido 16 jul. 2025, Aceito 6 mar. 2026, Publicado 3 jun. 2026
Rev. Psicol. Divers. Saúde, Salvador, 2026;15:e6373
https://doi.org/10.17267/2317-3394rpds.2026.e6373
ISSN: 2317-3394
Editoras responsáveis: Mônica Daltro, Marilda Castelar, Martha Castro
Título curto: Cultura, saúde mental e protagonismo de moradores de Manguinhos
Título corto: Cultura, salud mental y el protagonismo de los habitantes de Manguinhos
Short title: Culture, mental health, and the protagonism of Manguinhos residents
Introdução
O presente artigo tem como objetivo detalhar as perspectivas epistemológicas que fundaram a primeira fase do projeto Estratégias culturais como alternativas de inclusão social de populações vulneráveis no campo das políticas públicas sobre transtornos mentais e drogas: estudo de caso na comunidade de Manguinhos, desenvolvido entre os anos de 2021 e 2022, a partir de uma parceria entre Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Fundação Getúlio Vargas (FGV) e Queen Mary University of London (QMUL)[i] com financiamento do Brazil Accelerator Fund.
Este estudo teve como um de seus objetivos principais a realização de um levantamento de dados sobre as experiências socioculturais existentes no conjunto de favelas de Manguinhos, localizado na Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro. Com este inventário, buscou-se mapear e catalogar práticas culturais e artísticas existentes no território, assim como identificar seus impactos, tanto no que tange às questões identitárias, quanto às relacionadas à promoção da saúde mental (por parte destas ações culturais).
As experiências culturais são entendidas aqui de forma ampla, buscando abarcar diversas estratégias, expressões e produções dos moradores. Buscou-se contemplar tanto atividades habitualmente entendidas como produção de cultura, como exemplo: música, teatro, dança, cinema e artes plásticas, quanto manifestações relacionadas com esporte, cidadania e direitos humanos, pautas identitárias, que abrem espaço na comunidade para discussões sobre gênero, questões étnico-raciais, sexualidade e geracionais. Desta forma, a perspectiva interseccional se torna fundamental ao atentar para o cruzamento de diferentes marcadores sociais na trajetória dessas pessoas, atendidas pelas ações sociais existentes no território.
Para este mapeamento, foi realizada uma pesquisa em bases de dados públicos, de acesso irrestrito e a sistematização destes dados possibilitou, a partir de um olhar qualitativo, a realização de rodas de conversa virtuais com produtores culturais e a confecção de um catálogo digital de iniciativas culturais (https://cpdoc.fgv.br/pesquisa-conhecimento/estrategias-culturais-manguinhos). Essas produções viabilizaram a divulgação de ações comunitárias existentes no território, assim como reflexões sobre o fazer cultural local, sobre desafios enfrentados pelos produtores culturais e sobre efeitos das ações realizadas pelas iniciativas culturais mapeadas.
Nesse sentido, a publicação destes dados é entendida como um meio de valorização das tradições locais e das ferramentas de cuidado comunitárias presentes na região de Manguinhos. O catálogo fruto desta pesquisa pode ser entendido, inclusive, como patrimônio cultural e/ou como um artefato de memória que versa sobre essas tradições locais.
A partir do campo da saúde coletiva, é importante considerar que nos últimos anos no Brasil, temos acompanhado um agravamento do desmonte do Sistema Único de Saúde (SUS) e das políticas públicas, apresentando impactos profundos nas comunidades de baixa renda e periféricas (Freire & Castro, 2023). Nesse contexto, torna-se fundamental, então, realizar estudos e pesquisas que possam gerar informações e visibilidade social de ações e experiências de inclusão social e participação coletiva. Desse modo, o artigo busca contribuir para o planejamento de políticas públicas de intervenção social, assim como fortalecer o protagonismo dos sujeitos e grupos sociais que trabalham na construção de redes de suporte social e solidariedade de modo inovador e inclusivo no bairro de Manguinhos.
Saúde mental e cultura
No que tange ao campo da saúde mental, a Reforma Psiquiátrica no Brasil, desde a década de 1970, foi fundamental na luta por políticas de saúde mental substitutivas ao manicômio e de cuidado em liberdade, baseado em redes de atenção psicossocial e intersetoriais, transformando-se em um dos mais importantes movimentos sociais do país. Nas últimas quatro décadas, consolidou-se um novo paradigma no campo da saúde mental, com ganhos assistenciais, políticos, legislativos e sociais, com um progressivo fechamento de leitos em hospitais psiquiátricos e a reorientação de uma política hospitalocêntrica para uma rede de serviços de saúde mental e dispositivos de base territorial (Amarante, 1995, 2007; Desviat, 1994/2015; Farinha & Braga, 2018; Yasui, 2010).
A Reforma Psiquiátrica Brasileira tem como forte característica a questão da participação social dos usuários e familiares e dos movimentos sociais na construção das políticas de saúde mental, assim como o protagonismo dos sujeitos e grupos organizados. Para essa abordagem, é fundamental pensar a Reforma Psiquiátrica como processo social complexo (Amarante, 2021; Rotelli et al., 1986/1990), com uma concepção ampliada de saúde e uma visão de desconstrução manicomial para além dos muros do hospício, não só de crítica à noção de doença/transtorno mental, mas também de produção de um novo “lugar social” para a loucura e a diversidade.
Nesse sentido, as experiências e projetos de arte, cultura, trabalho, economia solidária e participação social são estratégias fundamentais para o suporte social nas situações de sofrimento mental grave, abuso de drogas, e diferentes formas de vulnerabilidade e populações marginalizadas, produzindo diferentes formas de acolhimento e trocas sociais de grande relevância no enfrentamento da exclusão social. Assim, para além da abordagem sobre a doença e o diagnóstico psiquiátrico, torna-se central a visão das iniciativas socioculturais como modos de produção de vida e saúde nos territórios periféricos e como frentes de trabalho e intervenção fundamentais para os serviços de atenção psicossocial e assistência social, em redes intersetoriais. Isto é, não apenas se questiona e se amplia a noção de cuidado como restrito ao campo da saúde, seja na dimensão biológica ou psíquica, mas também se reflete sobre uma noção complexa de cuidado e de saúde, que inclui a construção de novas identidades como ferramenta de superação da marginalização e afirmação da cidadania.
Alguns dos projetos inovadores realizados nos últimos anos que embasaram essa reflexão foram: a organização pelo Ministério da Cultura (MinC) da oficina “Loucos pela Diversidade - da diversidade da loucura à identidade da cultura”, em 2007, com a presença do então Ministro Gilberto Gil, que foi uma iniciativa pioneira na articulação das políticas de saúde mental com as políticas culturais e, em 2008, foi lançado o Edital de Prêmios Loucos pela Diversidade, edição Austregésilo Carrano, que teve mais de 400 inscrições e contemplou 55 trabalhos de artistas individuais e grupos no campo da saúde mental (Amarante & Lima, 2008).
Outra iniciativa que também encabeçaram o debate e o fortalecimento da dimensão sociocultural da Reforma Psiquiátrica Brasileira foi a atividade “Nada sobre nós sem nós - Oficina Nacional de Indicações de Políticas Públicas Culturais para pessoas com deficiência”, em outubro de 2008 (Amarante & Lima, 2009). Essa oficina deu origem a um edital específico no qual concorreram centenas de iniciativas culturais de artistas individuais e coletivos com deficiência. Por outro lado, como um dos produtos mais importantes dessa oficina foi a aprovação e posterior promulgação da Nota Técnica 001/2009, da Secretaria da Identidade e Diversidade Cultural (SID/MinC) que trata das políticas públicas culturais para inclusão de pessoas com deficiência.
Estas iniciativas tiveram como objetivo a produção de práticas culturais que incentivem o exercício da cidadania e dos direitos das pessoas em situação de risco e vulnerabilidade social. Abordam a saúde não como ausência de doença ou um estado abstrato de bem-estar, mas sim a saúde como qualidade de vida e como necessidade de produção e difusão dos mecanismos de expressão cultural como fundamentais na emancipação da sociedade.
Posto isto, para além do papel da cultura junto às instituições de cuidado em saúde e usuários do SUS, abre-se um espaço de debate e propositividade acerca da cultura enquanto dispositivo de resiliência, produção de saúde mental e vida nas comunidades. Neste artigo trabalharemos os territórios de favela, em especial. Ainda são poucos os dados sobre saúde mental das populações de favela, porém aqueles que encontramos mostram os efeitos nocivos da violência armada e do descaso estatal aos moradores e a importância da resposta de grupos culturais autônomos fomentando ações de resiliência frente a essa realidade.
Realizada entre 2018 e 2020, a pesquisa Construindo Pontes investigou o impacto dos conflitos armados e da violência urbana na saúde mental e no bem-estar dos moradores do conjunto de 16 favelas da Maré. Através de uma abordagem quantitativa, três estudos interdisciplinares sobre saúde mental e uso de substâncias (além de ações participativas culturais no território), a pesquisa revelou dados importantes sobre a população da Maré. Dentre as 1.211 entrevistas domiciliares, 31% dos moradores relataram prejuízos à saúde mental e 19,5% à saúde física causados pela violência. Esse número aumenta quando tratamos dos 44% dos entrevistados que estiveram em meio a tiroteio, já que dentre estes, 44% relataram prejuízos à saúde mental e 29% à saúde física em decorrência de eventos violentos (Cruz et al., 2021; Silva & Heritage, 2021a). A partir da realidade posta, as redes de sociabilidade, a religiosidade, as atividades físicas e as atividades culturais, físicas e virtuais, se mostraram importantes fatores de resiliência para moradores da Maré (Silva & Heritage, 2021b)
No conjunto de favelas da Cidade de Deus, além da violência e do pouco investimento estatal, a pandemia de Covid-19 também foi um fator de piora das condições de saúde mental. Pesquisas realizadas pelo Coletivo de Pesquisa Construindo Juntos neste território, em 2020 e 2021, apontaram que houve um agravamento de situações de saúde mental de 88% dos moradores. Com a ausência do Estado, para além das forças militarizadas de repressão, grupos civis passaram a ter um papel fundamental na promoção de direitos e saúde na Cidade de Deus (Coletivo de Pesquisa Construindo Juntos, 2021, 2023). A partir disto, a relação entre Estado e sociedade se inverteu, havendo um fortalecimento das relações democráticas locais.
Com toda instabilidade do território, ainda assim, as instituições de base comunitária e vários artistas, profissionais e líderes locais promovem ações que transmitem esperança na favela. Políticas sociais advindas do “Nós por Nós” que permeiam anos de existência. Uma verdadeira Reinvenção da Democracia local (Democracia comunitária). (Coletivo de Pesquisa Construindo Juntos, 2023, p. 26)
Corroborando estas pesquisas, Guljor et al. (2018) através de uma cartografia da oferta de cuidados através da percepção das lideranças comunitárias, profissionais e gestores sobre a questão da droga e dos transtornos mentais na comunidade de Manguinhos e no Complexo da Maré, observaram uma forte presença de iniciativas comunitárias, não governamentais, voltadas para a auto-organização e inclusão social. Na região, estas duas comunidades reúnem em torno de 200.000 pessoas e refletem os conflitos encontrados nos grandes centros urbanos brasileiros - desigualdade, violência, desemprego, miséria, drogas – foi identificado um movimento profícuo de iniciativas de resgate dos direitos de cidadania e reconfiguração do lugar social através da valorização de suas expressões artísticas.
Desta forma, identificar, conhecer, sistematizar e difundir estas iniciativas e expressões se configura como uma estratégia potente para compreender ações de promoção de vida e saúde mental nas comunidades, apoiar o protagonismo dos moradores e ampliar a disseminação das ações em curso e potencializar as redes de intercâmbio e apoio entre os diversos grupos. Neste contexto, entende-se a democratização do acesso à pluralidade de manifestações como um instrumento fundamental na afirmação das identidades individuais e coletivas. A ruptura com um olhar predominantemente estigmatizado sobre moradores e favelas através da valorização de expressões artísticas locais possibilita a criação de novas estratégias de promoção da saúde, produção de vida e acesso a direitos nesses territórios.
O projeto Estratégias culturais como alternativas de inclusão social de populações vulneráveis no campo das políticas públicas sobre transtornos mentais e drogas: estudo de caso na comunidade de Manguinhos, por meio da investigação das iniciativas socioculturais, identificou projetos no território em questão, inclusive os realizados por organizações, entidades e movimentos sociais. Desse modo, buscou-se investigar quais os pressupostos, efeitos e resultados destas intervenções no processo de auto-organização da comunidade, de produção de saúde, produção de subjetividades, emancipação e cidadania.
Nesse sentido, este projeto se coloca também como uma crítica às visões de saúde mental higienistas e, também, àquelas que consideram a saúde mental como um “bem-estar” individual, ou saúde mental como “felicidade” no sentido de uma mercadoria de consumo. De tal modo que é central a reflexão sobre uma ruptura com a noção de arte como terapêutica, na medida em que as relações entre saúde mental, arte e cultura remetem muito mais a questões de cidadania e ampliação das possibilidades de reinvenção da vida e da criação de novos sentidos e significados que nos desafiam a sair do reducionismo. Portanto, não se trata nem de uma visão “preventivista” em saúde mental, nem “promocionista”, no sentido de uma instrumentalização da arte, no sentido de um agir puramente “instrumental”, mais que isso, partimos das noções de determinação social da saúde mental, conceito ampliado de saúde e cultura como produção de subjetividades na criação de espaços coletivos.
Para falar um pouco mais sobre a pesquisa, é importante primeiramente refletir um pouco sobre a história e as características das favelas de Manguinhos.
Bem-vindo ao MGH: o território de Manguinhos
Localizado na Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro, o Complexo de Manguinhos é composto por 12 favelas que são moradia de mais de 36 mil pessoas. O território, originalmente de mangue, foi ocupado ao longo do século XX impulsionado por ações estatais ou autônomas de ocupação do território a partir de movimentos de operários com início na década de 1940 (Wikifavelas, 2025). A região de Manguinhos se estabeleceu historicamente como local marcado pela violência armada, a desigualdade social e violações de direitos, o que resulta diariamente em diversas demandas sociais não atendidas.
Em Histórias de pessoas e lugares, Fernandes e Costa explicam que a ocupação na região é fruto do processo de urbanização da cidade e suas dinâmicas de poder, que nos levam além da simples “história de uma região favelizada”, permitindo “descortinar (...) uma história centenária, complexa e múltipla” (Fernandes & Costa, 2009, p. 19).
Dentro de Manguinhos, a Cidade da polícia, que é cenário dos treinamentos da Polícia Civil do Rio de Janeiro, divide terreno com grupos de narcotraficantes. Do outro lado da Avenida Leopoldo de Bulhões, popularmente conhecida como “faixa de Gaza” por conta de seus frequentes conflitos armados, a Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP), da Fundação Oswaldo Cruz, contrasta com as pilhas de lixo, as numerosas pessoas em situação de rua - que se instalam sob as estruturas da Estação de trem de Manguinhos - e o rio poluído.
Campos e Soares (2022) apontam que nas últimas décadas os problemas sociais e ambientais que se desenharam no século XX se aprofundaram através de outras movimentações:
Nos últimos 20 anos, o quadro de violências, histórico e institucionalmente vivido pela população de Manguinhos, foi ampliado, primeiramente, pelas obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), em seguida pela presença das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) e, mais recentemente, pelas consequências da pandemia do Covid-19. (Campos & Soares, 2022, p. 7)
Ações de origem estatal são muitas vezes vistas pelos moradores como deslocadas da realidade vivida por eles. Um exemplo disso é uma entrevista concedida a Ribeiro (2023), em que uma moradora fala dos benefícios do PAC, mas destaca também sua falta de humanização e conexão com a cultura local.
Ivone destaca, porém, a forma pouco humanizada que o poder público através do PAC agiu no território de Manguinhos e trata seus moradores: “O governo ele chega e diz que vai te dar dignidade, que vai restituir a cidadania, mas ele não investe na figura humana, ele faz uma construção e aí ele não investe em cultura, não investe em nada” (Ribeiro, 2023, p. 196).
Nesse contexto, destacam-se iniciativas, lideranças e mediadores comunitários que contribuem para a promoção de saúde e acesso a suporte social através de ações autônomas. Frente ao descaso estatal, a auto-organização dos moradores se torna uma alternativa para a promoção da vida no território.
Método
Partindo da hipótese de que as iniciativas culturais são potentes como estratégias de reorganização de vida dos sujeitos socialmente vulnerabilizados, a equipe de pesquisa entendeu que é importante estudar como os processos de participação em coletivos de arte e cultura se tornam referências de transformação, de apoio e de construção de redes sociais. O percurso de construção desta pesquisa foi marcado por reviravoltas, tendo sido adiado devido ao início da pandemia do Covid-19 em 2020, o que demandou uma reformulação completa do perfil do projeto. Em função do período de isolamento social e sanitário devido à pandemia, o projeto, que inicialmente seria desenvolvido com base na observação participante, precisou ser readaptado para uma versão remota e digital. Com uma equipe integrando três instituições, com diferentes estruturas institucionais, foi possível transpor esse desafio e escolher um recorte inicial que, também, pela questão da limitação de tempo para passar por avaliação pelo Comitê de Ética, foi redesenhado deixando observações de campo e entrevistas de lado, fundando-se exclusivamente em dados de acesso público, visando construir um catálogo das iniciativas culturais que revelasse um mapeamento sobre o campo e território.
A partir das mudanças impostas pelo cenário pandêmico, surgiu outro problema de pesquisa: como estabelecer uma relação de troca com a comunidade sem o presencial, mas que fosse além da simples coleta de informações? À vista disso, a participação de pesquisadores de Manguinhos se tornou ainda mais importante. Além de contribuírem com a construção da metodologia e enriquecerem o projeto com o conhecimento do território, seus grupos e suas dinâmicas de atuação, esses pesquisadores foram a ponte com os produtores culturais. Através do contato direto com estes sujeitos, algo que seria impossível sem uma rede de contato e relacionamento pré-existente e solidificada, Franciele Campos e Luiz Soares, enquanto pesquisadores e moradores, foram os olhos e mãos da pesquisa no território.
Como dito anteriormente, com a reformulação da pesquisa durante o período da pandemia, houve uma mudança no desenho da pesquisa e no cronograma, constituindo-se como espaço de investigação e coleta de informações públicas de acesso irrestrito, publicizadas por meios digitais em sites, redes sociais e matérias jornalísticas, e outros meios públicos existentes, e de mobilização dos grupos, projetos e coletivos culturais e artísticos do universo comunitário do complexo de Manguinhos. O mapeamento e a catalogação das iniciativas culturais foram divididas em dez etapas: 1) Listagem inicial (mapeamento) de iniciativas culturais pelos pesquisadores, na internet e no território; 2) Definição de perguntas guia e produção da matriz de informação; 3) Coleta das informações básicas sobre as organizações listadas; 4) Preenchimento das matrizes de informação; 5) Coleta de demais informações e materiais sobre atividades culturais de fontes secundárias (fotografias, artigos científicos, materiais de divulgação, etc); 6) Análise e complementação das matrizes de informação com informações faltantes; 7) Realização de três rodas de conversa online (lives) com 17 organizações convidadas; 8) Correção e complementação das matrizes com as informações coletadas durante as lives. Produção de textos sobre cada iniciativa e devolutiva dos textos para os agentes culturais envolvidos em cada atividade catalogada; 9) Construção do catálogo com designer da comunidade e checagem de textos com os produtores culturais; 10) Lançamento e disseminação do catálogo, tradução para a língua inglesa.
A partir destas etapas e com a mudança da pesquisa para o formato remoto, algumas perguntas sobre a atuação desses grupos no ambiente digital se tornaram fundamentais para compreender a realidade das iniciativas culturais de Manguinhos: esta organização ainda está ativa? A maioria dos grupos não possui um profissional dedicado à comunicação, então seria importante entender se a sua presença digital reflete a atuação do grupo no território. Posto isto: esta organização também opera em plataformas digitais? Atualizou mídias sociais e conteúdo em acesso público nos últimos meses? Para além disso, também foram feitas perguntas sobre a atuação do grupo de forma geral: Quando esta organização surgiu? Como se mantém financeiramente? Qual é o seu público? Que tipo de atividade Cultural desenvolve? Esta organização tem ligação direta com a promoção da saúde?
As matrizes inicialmente contaram com categorias tais como: endereço de referência para mapeamento, endereço digital, redes sociais e número de seguidores (Website, Facebook, Instagram, Youtube, outros), e-mail e contatos, atuação online ou offline, descrição, área, tipo de organização, forma de financiamento e público atendido. Tais matrizes foram desenvolvidas com a pesquisa pela internet e serviram como uma aproximação da realidade cultural local, e posteriormente dando origem aos textos e conteúdo utilizado na produção de um catálogo que versa sobre as 40 estratégias culturais desenvolvidas em Manguinhos por ocasião da pesquisa.
Esse processo resultou na revisão do levantamento inicial de projetos culturais, com a inclusão e exclusão de experiências para o catálogo. Os critérios de seleção utilizados foram: ser uma iniciativa cultural atuante no território de Manguinhos, estar em atividade no presente momento e disponibilizar informações online em acesso público. Assim, iniciativas que, de alguma forma, não atendiam a estes critérios foram excluídas. Os pesquisadores do território passaram, também, a identificar iniciativas remanescentes que não haviam sido catalogadas até o momento e que correspondiam aos critérios propostos.
O texto final do catálogo também foi elaborado a partir de três rodas de conversa virtuais, em formato de lives transmitidas ao vivo. A primeira, no dia 05/02/2022, teve a participação das estratégias culturais Pac’stão, Rede Casa Viva, Periódico O Manguinho, Coletivo Mulheres do Vento, Experimentalismo Brabo, Teto Verde Favela e Favela Bilíngue. Em sua segunda edição, realizado dia 18/02/2022, o evento contou com a presença de representantes de cinco iniciativas culturais: Ballet de Manguinhos, Colônia de Férias do Mandela, Slam Manguinhos, Biblioteca Casa Viva e Projeto Recriando Manguinhos. A última Roda de Conversa foi realizada no dia 25/02/2022 e teve a participação dos representantes das iniciativas culturais ONG Origem, Bloco Discípulos de Oswaldo, Sarau Poético de Manguinhos, Espaço Sonhar e Museu da Vida (People's Palace Projects [PPP], 2022).
Através desses eventos o projeto conseguiu se aproximar, ainda que virtualmente, do bairro de Manguinhos. As lives proporcionaram o contato da equipe com experiências locais, podendo aprender sobre as dinâmicas sociais presentes no território e participar de um debate em que os protagonistas, isto é, as iniciativas culturais, tiveram destaque e lugar de fala. As dificuldades de uma pesquisa on-line, foram em parte diminuídas. Nesses três eventos online foi possível reunir participantes e fundadores de 17 iniciativas culturais de Manguinhos que falaram sobre suas trajetórias pessoais e profissionais e sobre os projetos nos quais atuam. Em rede, eles refletiram sobre seus processos de desenvolvimento, dificuldades e formas de resistência, bem como as formas de sobrevivência e reinvenção das estratégias culturais durante a pandemia de Covid-19. Infelizmente nem todos puderam participar. Mas, a partir desse contato, através das lives, o grupo de pesquisa pode aprender com o território e saber mais sobre como a cultura se insere presentemente em Manguinhos.
Com as matrizes e lives finalizadas, foi iniciado o processo de contato com todas as iniciativas para aprovação de texto e fotografias. Esse contato foi feito pela internet, através de contato pelo WhatsApp e e-mail. Os textos sobre cada projeto foram enviados aos responsáveis pelos projetos, para que pudessem contribuir com revisões, sugestões e ampliações do texto, a partir de seu ponto de vista. Entendemos que esse processo foi fundamental para a constituição de um método colaborativo, de forma que a publicação final respeitasse o modo como esses grupos se organizam e se enxergam.
Por fim, o catálogo foi construído em parceria com o designer Douglas Luddens, morador de Manguinhos, que a partir de sua experiência profissional e suas vivências no território buscou trazer para o material a estética do bairro. O trem, as torres de energia e os grafites marcantes na geografia e relações sociais de Manguinhos, foram inspiração para um design que tem como principal objetivo organizar os conteúdos apresentados de forma simples e acessível e de refletir esteticamente a diversidade cultural de Manguinhos.
O catálogo digital em inglês e português contém reflexões teóricas, metodológicas e informações sobre 40 iniciativas culturais; as lives e o evento de lançamento do catálogo na Biblioteca Parque Marielle Franco, no território, com a participação dos grupos e projetos envolvidos, foram os produtos centrais da pesquisa.
Figura 1
Catálogo Estratégias Culturais em Manguinhos: Olhares sobre o cuidado em saúde mental

Nota. Páginas selecionadas do catálogo digital desenvolvido durante a pesquisa, ilustrando as iniciativas Ballet Manguinhos e Favela Bilíngue. Reproduzido de Guljor et al. (2022).
Estratégias culturais em Manguinhos: para além de 40 iniciativas
Em oposição a esta construção de não-lugar e perpetuação de processos de vulnerabilização da população local, o catálogo Estratégias culturais em Manguinhos: Olhares sobre o cuidado em saúde mental e o protagonismo de moradores de favelas (Guljor et al., 2022) reforça um olhar que parte dos produtores e articuladores culturais de Manguinhos: o bairro como local de produção de cultura e vida protagonizado pelos próprios moradores.
Historicamente os moradores de favelas são entendidos como indivíduos “marginais” e/ou “desviantes” (Becker, 2008). Estas acusações se dão pelo simples fato de comumente pertencerem a uma determinada classe social e residirem em um local entendido socialmente como violento e perigoso. Segundo Menezes, “as favelas sempre foram vistas como uma espécie de quisto que ameaçava a organização social da cidade” o que teria levado a uma perspectiva estigmatizante em relação a favela no “imaginário da cidade” (Menezes, 2015, p. 20). Dessa forma, “configurou-se, especialmente a partir dos anos 1990, a representação do conflito social no Rio de Janeiro como uma guerra” (Menezes, 2015, p. 22), provocando “entre as populações que não moram nas favelas uma grande desconfiança em relação aos favelados” (Menezes, 2015, p. 23).
A pesquisa buscou evidenciar o quanto essas acusações possuem uma dimensão eminentemente política e acusatória, isto é, o “desvio é criado pela sociedade” (Becker, 2008). Portanto, o desvio não é algo intrínseco, algo que as pessoas carregam em si. Ser “marcado como desviante tem importantes consequências para a participação social posterior e para a autoimagem de alguém” (Becker, 2008, p. 78). Neste sentido, entendemos, tal como enfatizou Butler (2004/2006), que a vulnerabilidade social se encontra distribuída de maneira desigual na sociedade, fazendo com que determinados contingentes populacionais estejam mais propícios a serem alvo de violências arbitrárias. Recorrendo a Veena Das (2006/2020), buscamos uma perspectiva analítica que privilegia a agência e a voz dos sujeitos implicados em experiências de violência, tornando-se central a análise sobre a capacidade dos sujeitos em reconfigurar a realidade vivida, a partir de suas ações cotidianas e da dimensão coletiva de suas ações.
Como dito por Carine Lopes, diretora do Ballet de Manguinhos, em uma das lives do projeto e no catálogo, a produção cultural de Manguinhos é um movimento de ação e resistência em resposta à negação do Estado. “A cultura aqui é tomada à força, mesmo. Não é algo que é oferecido de graça, dado. É o que os moradores querem” (Guljor et al., 2022, p. 15).
Nas páginas do catálogo, a violência vivida pelos moradores de Manguinhos e a falta de investimento do governo em políticas públicas contrastam com a riqueza de iniciativas desenvolvidas de forma autônoma na comunidade, seja no contexto da luta por direitos ou na expressão cultural e artística. Os atores sociais refletem sobre o cenário cultural de Manguinhos e Campos e Soares (2022), pesquisadores, moradores e articuladores sociais do território, destacam a importância das iniciativas mapeadas como forma de expressão e organização social no campo do cuidado coletivo.
Somos nós que construímos com luta e persistência a cultura em Manguinhos. Um jovem não pode levantar sua voz para um agente de violência, mas ele pode cantar, rimar, dançar. Uma mãe sozinha não será ouvida, mas juntas elas se fazem som e força coletiva. E assim, a arte vai ocupando os silêncios que os corpos não poderiam desfazer. Em coletivo, em comunidade, todos cuidando de todos. (Campos & Soares, 2022, p. 8)
O território de Manguinhos revelou grande potência na produção de cultura e apoio social, com uma ampla diversidade de temáticas, espaços e estratégias culturais e artísticas que contribuem para o fortalecimento da cidadania e para a produção de saúde e vida. Os 40 grupos mapeados estão distribuídos entre as diferentes favelas do complexo e, a partir de uma classificação que considera a atividade principal da instituição, podem ser divididos entre as seguintes áreas temáticas:
Figura 2
Iniciativas Culturais de Manguinhos por área temática

Os dados coletados e os relatos dos produtores culturais durante as rodas de conversa nos oferecem um panorama geral da realidade cultural de Manguinhos no momento de produção da pesquisa. O cenário é composto por poucas organizações formalizadas, em sua maioria com pouco ou nenhum apoio do setor público. A maior parte das organizações é de pequeno porte, algumas delas fruto do trabalho de uma pessoa ou grupo específico informalmente, como atividade profissional secundária. Somando-se a isso, são poucos os grupos que possuem registro sistemático de seus processos e ações, o conhecimento é compartilhado de pessoa para pessoa através do próprio trabalho. Entretanto, as iniciativas formam redes de apoio coletivo entre si e para atender a comunidade, que potencializam os movimentos de resistência e a produção cultural e, consequentemente, de vida.
Como observam Campos e Soares (2022), mesmo com poucos recursos, o movimento cultural de Manguinhos guarda grande potência, e poderia ser valorizado com maior investimento público e reconhecimento de seu papel social para a cultura e saúde coletiva.
Se essas pessoas conseguem fazer a diferença quase sem dinheiro, usando espaços improvisados, entremeando as ações culturais com o trabalho com o qual mantêm suas famílias, imagina o que fariam se existissem políticas públicas que garantissem recursos permanentes para a realização destas atividades. O quanto ganharíamos em qualidade e quantidade. É enorme o poder dessas pessoas que fazem tanto com tão pouco. O quanto avançaríamos na produção de cultura e saúde. (Campos & Soares, 2022, p. 9)
O território é lugar de forças sociais ativas, antes de ser local de instabilidade social a ser mantido sob controle e vigilância (como se reproduz muitas vezes), portanto com potencialidades e contradições, com necessidades e demandas. Então, o olhar para a comunidade muda a valência, e é possível considerar o território como lugar de inventividade e solidariedade. Desinstitucionalizar ou desconstruir a imagem de exclusão da favela, como uma imagem dominante, para que outros sentidos sejam revelados, como por exemplo a sua riqueza de produção cultural, passa a ser uma questão central para a conquista de direitos e ampliação de acesso a recursos públicos, inclusive relacionados à saúde.
Para gerar “mudanças locais efetivas e sustentáveis” nos territórios vulnerabilizados, depende-se de uma multiplicidade de políticas integradas, que extravasam o setor saúde, se tomado numa perspectiva setorial tradicional, mas que passa a ser entendido como relacionado ao conjunto de políticas públicas e condições de vida e acesso a direitos de cidadania em regiões de populações vulnerabilizadas:
O campo da Promoção da Saúde voltado para iniciativas comunitárias e programas de saúde reconhece que melhorias nas condições de saúde e na qualidade de vida pressupõem uma visão integradora das políticas sociais, onde o diálogo interdisciplinar, as ações intersetoriais e a participação das comunidades envolvidas adquirem centralidade. Nessa perspectiva, políticas e programas de promoção da saúde mais inovadores preocupam-se com os determinantes econômicos, sociais, culturais, ambientais e políticos vocalizados pelas próprias comunidades dentro de contextos de pobreza e exclusão social. (Peres et al., 2005, p. 758)
Nessa perspectiva, compreende-se a relação da cultura com a saúde mental a partir de diversas rupturas e deslocamentos, num sentido epistemológico e genealógico (Foucault, 1961/1978; Santos, 1997), tais como: a noção de arte compreendida como produção de subjetividades, como produção de vida e saúde, como construção de cidadania e participação social e ampliação de linguagens com o mundo; e, por fim, ruptura com a concepção de cultura como restrita à arte institucionalizada, portanto não se restringe aos canais e espaços formais das artes ou a formalismos escolásticos, e nem submetida a divisão entre “arte nobre” e “folclore”.
Um exemplo disso é o que foi dito por Carlos Noronha, o mestre Xula, do Bloco Discípulos de Oswaldo, à equipe de pesquisa. O mestre aponta que as aulas de percussão oferecidas pelo bloco para moradores da comunidade, além de garantirem uma continuação da cultura e tradições carnavalescas, por décadas vistos como cultura de menor valor, contribuem com a promoção do bem-estar do público do projeto.
Com o decorrer do tempo, pudemos perceber que o projeto ia muito mais além do que aprender a tocar um instrumento. Nós enxergamos a possibilidade efetiva de transformar as vidas das pessoas, melhorando a introspecção, contribuindo para a saúde mental, agregando qualidade de vida através da percussão. (Guljor et al., 2022, p. 17)
Neste mesmo movimento, Xandy MC, representante da Roda Cultural do Pac’Stão, fala sobre a importância que esse grupo de arte de rua se construiu como um local de troca de conhecimento, apoio mútuo e produção de cuidado.
Quando eu conheci a cultura, a arte de rua foi muito importante para mim, porque eu vi que toda a violência do território onde eu estava, toda a angústia que eu passava, eu poderia expressar de alguma forma…Só fazer a roda de rima ali, que para nós já era excelente, porque a gente estava começando a de fato estudar. Para nós era como se fosse uma aula todo dia. A gente vai chegar lá, alguém vai trazer um livro diferente, uma experiência diferente, e a gente vai conseguir conversar. E partir dali a gente foi desenvolvendo as primeiras rodas de rima. (Guljor et al., 2022, p. 50)
Diante do exposto, em relação ao campo da saúde mental, busca-se entender o conceito de território como lugar de autonomia e resistência, na construção da inclusão social, da participação comunitária e da transformação de práticas e espaços na cidade. Como afirma Elenice Pessoa, coordenadora do Coletivo Recriando Manguinhos: “Nesse inconformismo que nós temos, é que nós vamos nos reinventar” (Guljor et al., 2022, p. 21).
Nesse sentido, o mapeamento de iniciativas culturais mostra-se como um campo a ser explorado no que tange à pesquisa em políticas públicas sobre o enfrentamento da exclusão social, a partir da interface cultura, saúde e vulnerabilidade social, inclusive ampliando o desenvolvimento de articulações para a promoção da saúde mental e resgate de identidades culturais. Além disto, a reunião das experiências socioculturais comunitárias em uma publicação coletiva (catálogo) e seu posterior compartilhamento em espaços de intercâmbio de saberes e práticas, possibilita articulação entre as lideranças comunitárias e movimentos sociais na construção de propostas de políticas públicas na interface entre cultura e saúde mental, sendo um importante fomento à reprodução de metodologias semelhantes em comunidades similares. Por fim, a produção de literatura científica sobre o impacto das expressões culturais como ferramenta de cuidado e promoção da saúde mental em comunidades conflagradas contribui na construção da noção de cuidado em saúde mental como um processo social complexo, sendo inerente a ele a valorização dos recursos comunitários.
De forma mais específica, é possível reconhecer, no contexto social brasileiro, a atualidade dos temas da favela e da exclusão social. Desse modo, compreende-se como fundamental a construção de novas narrativas sobre a favela e seus significados (bem como sobre saúde mental e sofrimento psíquico), que permitam desconstruir a visão hegemônica e transformar os seus sentidos sociais. No entanto, há uma mídia hegemônica que prioriza narrativas que colocam a favela no negativo, associando-a unicamente à violência, problemas urbanos, violação de direitos e injustiças sociais, não somente veiculando, mas massificando a imagem da favela associada ao crime, ao tráfico, às drogas, às mortes e “bala perdida”, colocando o povo de favela como “classes perigosas” (Coimbra, 2001). Em discussões mais recentes no campo das ciências sociais, Rippel e Belo (2024), ao analisar a obra autobiográfica Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus, destacam como a ideia de periculosidade e vadiagem atrelada aos moradores de favelas data do final do século XIX e passa a ser utilizada para justificar as violências do estado perpetradas contra estes sujeitos.
A percepção da favela como um local associado à violência começou a ser usada para justificar e legitimar a separação da cidade em "morro e asfalto". As reivindicações dos moradores das comunidades por acesso à cidadania deixaram de ser conflito de classes, como relata Carolina em sua obra, para serem vistas como questões de segurança pública, justificando a "guerra ao tráfico" como uma manobra necessária para combater os favelados violentos. (Rippel & Belo, 2024)
Nesse sentido, a produção midiática dos próprios moradores sobre suas estratégias culturais é um caminho para a construção de contranarrativas, como nos aponta Franciele Campos, representante do coletivo Mulheres do Vento:
Movimentar os nossos corpos para criar encontros e registros trouxe para nós muito mais do que condição de vida. Foi uma possibilidade de sermos vistas para além do lugar estigmatizado de moradora de favela, e nos reconhecer como artistas e produtoras culturais. Então, em um dado momento, a gente decidiu que iria contar nossas histórias. Assim, os movimentos de vida não são apenas um projeto individual, mas uma forma de dedicar nossos corpos e ideias a lidar e transformar essa realidade, sempre tentando construir um diálogo artístico junto às mulheres e jovens de Manguinhos. (Guljor et al., 2022, p. 42)
É nesse sentido, conforme analisam Garcia e Gil (2021) que o compartilhamento de vivências de exposição a múltiplas violências e estigmatizações cria o sentimento de comunidade e pertencimento, que é também cultural, narrativo e estético.
As referências identitárias expressam assimetrias e desigualdades sociais, disputam visões através de linguagens próprias, algumas dominantes, outras consideradas subculturas, por serem caracterizadas como marginais, periféricas, populares, faveladas. A recusa da cultura hegemônica por parte dos integrantes das assim chamadas “subculturas” se manifesta por meio de gestos, poses, movimentos, vestidos, palavras e expressões. (Garcia & Gil, 2021, p. 113)
Somado a isso, desenvolver estudos sobre a favela numa perspectiva dialógica, pode contribuir para revelar movimentos de contracultura positivos, de solidariedade e resistência presentes nestes territórios e buscar uma nova significação social para a favela como lugar de inventividade, potência social e redes de suporte comunitário. Por isso, o mapeamento e catalogação de estratégias de arte e cultura em Manguinhos também se relaciona com a visibilidade e a produção de novas significações para o território, a partir dos projetos culturais identificados.
Conceito ampliado de saúde e relações entre saúde mental e estratégias culturais
Para a pesquisa, tomamos como central o “conceito de saúde ampliado”, apresentado na Conferência Internacional de Alma Ata, de 1978 (Mendonça & Lanza, 2021). No Brasil o conceito ganhou força na VIII Conferência Nacional de Saúde, realizada em 1986, se solidifica como base da Constituição de 1988 e foi retomado na Lei nº 8.080 de 1990, a Lei Orgânica da Saúde (Rosário et al., 2020). Nesta última fica estabelecido:
Art. 3º Os níveis de saúde expressam a organização social e econômica do País, tendo a saúde como determinantes e condicionantes, entre outros, a alimentação, a moradia, o saneamento básico, o meio ambiente, o trabalho, a renda, a educação, a atividade física, o transporte, o lazer e o acesso aos bens e serviços essenciais. (Lei nº 8.080, 1990)
Neste sentido, o conceito de saúde e, consequentemente, suas ações de promoção, não se esgotam no estado de ausência de doenças, passando a ser compreendida como uma produção social, fruto de diferentes fatores. Para este estudo, buscamos compreender a produção de saúde em sua relação com as condições de vida, de trabalho, de moradia, alimentação, mobilidade e intercâmbio social, acesso a políticas públicas e outros fatores abrangentes.
A partir desses conceitos e eixos centrais de reflexão, entendemos que projetos, estratégias, coletivos e espaços de arte, cultura e organização comunitária são formas de produção de saúde e vida que permitem o fortalecimento comunitário, redes de proteção social, espaços de trocas e lugares de pertencimento que são indissociáveis do estado de saúde ou enfrentamento ao adoecimento e ao sofrimento no cenário contemporâneo, representando um incremento estruturante para a saúde mental das comunidades. Com o conceito ampliado de saúde, a saúde mental se relaciona com projetos de vida, autonomia e protagonismo dos sujeitos, muito mais do que com tratamento de doenças ou consultas e exames, como constituído no senso-comum, em que o paciente é um corpo passivo, objeto de intervenção do saber médico e técnico.
Assim, no campo da saúde coletiva e sua relação com as ciências sociais e a antropologia, produz-se uma ruptura com o saber médico-psiquiátrico clássico do capitalismo, centrado na doença e nos sintomas, a partir de uma visão individualista e biologicista, para a construção de um entendimento complexo de saúde mental, conectada aos significados sociais de saúde, doença, corpo e cuidado, dependente das relações de poder e da desigualdade social.
A partir do conceito ampliado de saúde, questiona-se o modelo de saúde essencialmente curativo, bem como a separação artificial na relação entre mente-corpo no processo saúde-doença e a hegemonia médica nesse processo, no debate sobre a crise dos serviços de saúde (Valla, 1999).
Para muitos dos grupos mapeados, o conceito ampliado de saúde surge e é promovido através da construção de novas formas de falar e cuidar de si e dos seus, junto aos moradores de favela. Como afirma Leo Salo, Membro do coletivo de palhaçaria Experimentalismo Brabo:
O Experimentalismo Brabo nasce como um coletivo cultural e artístico que tem a disposição de falar sobre cultura da paz, afeto e solidariedade em territórios de vulnerabilidade. Como a gente vai falar sobre afeto, solidariedade e cultura da paz para um povo que não se conhece? Vamos falar com as próprias pessoas do território sobre atores sociais importantes, e sobre manifestações culturais importantes. (Guljor et al., 2022, p. 30)
Resultados e discussão
A pesquisa permitiu uma aproximação com o universo das múltiplas estratégias e iniciativas artístico-culturais em Manguinhos, composto por diferentes projetos e grupos em várias linguagens, tais como: música, poesia, teatro, dança, fotografia, jornalismo, literatura, esporte, ativismo em direitos humanos, blocos de carnaval, coral, eventos culturais (sarau, rodas culturais, batalhas de MC’s), horta comunitária, dentre outros. As iniciativas alcançam públicos variados, incluindo crianças, jovens e adolescentes, adultos e idosos.
Ao longo do processo de identificação das iniciativas culturais presentes nas 12 favelas de Manguinhos, catalogadas durante o período da pandemia de Covid-19, tornou-se notória a necessidade de atentar ao modo como o contexto cultural se mesclou ao sanitário: grupos paravam de se reunir, interrompiam atividades, estavam na “correria” da sobrevivência. Como realizar a pesquisa em plena pandemia e sem ir ao campo se tornou um ponto-chave de nossa metodologia.
A restrição sanitária impôs limitações severas, mas também abriu vias para a coprodução com o território, mediante uma estratégia metodológica de “fazer com” e não somente “fazer para” corporificada, inicialmente, através da participação de dois moradores de Manguinhos no quadro de pesquisadores. Enraizados por tempo de vida, trabalho e mobilização, eles foram protagonistas na identificação de projetos culturais, costurando uma comunicação sensível, tanto com os responsáveis pelas iniciativas culturais, mobilizando-os para a importância do catálogo, quanto com os demais pesquisadores, compartilhando sentimentos, impressões e conhecimentos. Em conjunto com uma equipe multidisciplinar e multi-institucional, todas as pessoas estiveram enredadas pela escuta da expressão cultural local e pelos registros do território globalizados em redes sociais na Internet.
Além da dimensão física no território, vencer as barreiras da pandemia exigiu um processo de catalogação capaz de ir às bases de dados em outro campo: o digital e midiático, que revelasse a presença das expressões culturais de Manguinhos nas redes sociais da Internet. A necessidade de adaptação resultou em um processo metodológico inovador que, para além do próprio catálogo, tem gerado outros resultados.
Em 2023, o projeto de pesquisa conseguiu um novo financiamento do Brazil Accelerator Fund para a segunda etapa de pesquisa, que propõe a realização de entrevistas com produtores culturais de Manguinhos para a produção de um documentário de curta-metragem. O projeto também ganhou desdobramentos em outros territórios. Através de uma parceria entre People’s Palace Projects do Brasil e o Coletivo de Pesquisa Construindo Juntos, com apoio da FGV e financiamento da Fiocruz, através do Plano Integrado de Saúde da Favelas, a pesquisa “Redes de cultura e cuidado: promovendo saúde mental na Cidade de Deus” está mapeando e catalogando iniciativas culturais deste território juntamente com pesquisadores locais.
Por fim, a metodologia desenvolvida para esta pesquisa é hoje utilizada pelo NIHR Global Health Research Centre: community management of non-communicable diseases in Latin America[ii], o Latam Centre, para o mapeamento de iniciativas culturais em três países: Colômbia (Guaviare), Guatemala (Alta Verapaz) e Bolívia (San José de Chiquitos).
Considerações finais
O projeto aqui descrito e analisado buscou, portanto, a valorização da cultura local e a publicização das iniciativas identificadas e procurou dar relevo para as relações e redes de solidariedade e de apoio mútuo que compõem essas experiências socioculturais. Com este estudo, buscou-se uma visão ampliada das políticas de saúde mental, através da concepção de que a dimensão sociocultural se apresenta como determinante na transformação do lugar social do sujeito em sofrimento. Utilizamos como elemento norteador a concepção de determinação social da saúde, ou seja, fundando-se numa perspectiva da saúde entendida como associada ao conjunto de possibilidades de vida e ao contexto social e cultural. Através da inserção laborativa regular ou da participação em iniciativas que difundem as tradições e origens das comunidades, é possível operar uma transformação identitária dos sujeitos que, através deste deslocamento, se afirmam como cidadãos de direitos.
Conforme dito por Elizabeth Campos, diretora do Espaço Casa Viva – Rede CCAP:
Cultura é conhecimento, arte é resistência e a educação crítica, cidadã e emancipatória faz parte da construção de um ambiente de protagonismo, tanto do indivíduo, quanto do local… Arte e educação, a gente está falando do desenvolvimento de potências, de respeito, de trocas dialógicas, de empoderamento”. (Guljor et al., 2022, p. 25)
Com uma multiplicidade de iniciativas e estratégias artístico-culturais inovadoras na comunidade, são criados espaços coletivos que contribuem para novas significações das artes e também do cuidado com o sofrimento psíquico, constituindo-se em experiências de grande relevância não só em seu potencial de produzir lugares de pertencimento para os sujeitos e modos de participação social, mas também porque contribuem para uma desmedicalização e uma despatologização dos modos de cuidado e intervenção sobre o sofrimento psíquico e a vulnerabilidade psicossocial.
Os modos de viver e produzir cultura na favela são também diversos e múltiplos, constituindo vozes de resistência, que trazem a potência de questionamento da imagem estereotipada da favela como caos e violência. São muitos artistas, mediadores e líderes na comunidade que criam e desenvolveram projetos e iniciativas culturais de importante valor sociocomunitário e experiências emblemáticas para pensar os territórios de favela e periferia como centros de produção de cultura e de modos de solidariedade singulares, que contribuem para repensar a transformação social e o enfrentamento da desigualdade e da exclusão social.
As experiências e projetos de arte, cultura, trabalho, economia solidária e participação social são estratégias fundamentais para o suporte social nas situações de sofrimento mental grave e abuso de drogas. Diferentes formas de vulnerabilidade e populações marginalizadas produzem diferentes formas de acolhimento e trocas sociais no enfrentamento da exclusão social, da desfiliação e da discriminação. Em outras palavras, para além da abordagem sobre a doença e o diagnóstico psiquiátrico, torna-se central a visão das iniciativas socioculturais como modos de produção de vida e saúde nos territórios periféricos que também são frentes de trabalho e intervenção fundamentais para os serviços de atenção psicossocial, assistência social e redes intersetoriais. Isto é, não apenas se questiona e se amplia a noção de cuidado como restrito ao campo da saúde, seja na dimensão biológica ou psíquica estrita, mas também se reflete sobre uma noção complexa de cuidado e de saúde, que inclui a construção de novas identidades como ferramenta de superação da marginalização e afirmação da cidadania.
Entretanto, sabemos que para transformar trajetórias coletivas de sujeitos vulnerabilizados socialmente, é preciso construir políticas públicas integradas e intersetoriais e articular a rede de atendimento e cuidado, contudo também reconhecer os movimentos de autonomia, participação e reivindicação social que partem dos próprios sujeitos de uma comunidade ou grupo social. Nesse sentido, espaços de sociabilidade e produção ampliada de saúde dependem de ação estatal, mas igualmente da mobilização comunitária, denunciando modelos autoritários e verticais de intervenção que tomam o “outro” como objeto e depositário das ações. Como afirma Maura Santiago, do Sarau de Manguinhos, a cultura periférica existe e resiste, mas ainda carece de apoio. “Literatura de favela, literatura de mulheres, literatura periférica, para mim não existe isso. Existe literatura e existe um potencial de produção poética e literária que é igual para todo mundo. A gente só não tem espaço” (Guljor et al., 2022, p. 51).
Financiamento
Este projeto foi financiado pelo Brazil Accelerator Fund (BaF) – Fundação Oswaldo Cruz, Fundação Getúlio Vargas e Queen Mary University of London.
Os autores declararam ter feito contribuições substanciais ao trabalho em termos da concepção ou desenho da pesquisa; da aquisição, análise ou interpretação de dados para o trabalho; e da redação ou revisão crítica de conteúdo intelectual relevante. Todos os autores aprovaram a versão final a ser publicada e concordaram em assumir a responsabilidade pública por todos os aspectos do estudo.
Conflitos de interesses
Nenhum conflito financeiro, legal ou político envolvendo terceiros (governo, empresas e fundações privadas, etc.) foi declarado para nenhum aspecto do trabalho submetido (incluindo, mas não se limitando a subvenções e financiamentos, participação em conselho consultivo, desenho de estudo, preparação de manuscrito, análise estatística, etc.).
Indexadores
A Revista Psicologia, Diversidade e Saúde é indexada no DOAJ, EBSCO, Latindex – Catálogo 2.0 e LILACS.
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[i] As atividades de pesquisa foram desenvolvidas através do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental e Atenção Psicossocial (LAPS/ ENSP/Fiocruz), do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (FGV CPDOC) e da People’s Palace Projects (PPP/QMUL).
[ii] Disponível em: https://nihrlatamcentre.com/