Relato de experiência

 

Educação sexual no programa saúde na escola: relato de experiência intersetorial / Educación sexual en el programa salud en la escuela: relato de experiencia intersectorial / Sex education in the school health program: an intersectoral experience report

 

Geiciely Cavanha Tomim1 (https://orcid.org/0000-0001-6958-6562)

Camila de Fátima Pavan 2 (https://orcid.org/0000-0002-9521-2019)

Rafaelly Gomes Vieira3 (https://orcid.org/0000-0002-1933-708X)

Sara Caldart Lupatini4 (https://orcid.org/0000-0002-6754-2416)

 

1Contato para correspondência. Universidade Federal da Integração Latino- Americana (Foz do Iguaçu). Paraná, Brasil. [email protected]

2Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Cascavel). Paraná, Brasil. [email protected]

3,4Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Foz do Iguaçu). Paraná, Brasil. [email protected], [email protected]

 

RESUMO | INTRODUÇÃO: A sexualidade constitui uma dimensão fundamental da experiência humana, manifestando-se ao longo de todo o desenvolvimento. No entanto, ainda é um tema cercado por tabus e silenciamentos, especialmente na infância. OBJETIVO: Descrever a experiência, vivenciada pela primeira autora, na atuação intersetorial em ações de educação sexual, desenvolvida no âmbito do Programa Saúde na Escola (PSE) com estudantes do ensino fundamental em uma escola pública do município de Foz do Iguaçu (PR). MÉTODO: Trata-se de um relato de experiência com abordagem qualitativa e descritiva, em uma escola pública de Foz do Iguaçu (PR). Participaram estudantes do 4º e 5º anos, equipe do Núcleo Ampliado de Saúde da Família (NASF) e residentes multiprofissionais. A intervenção incluiu oficinas lúdicas sobre corpo, puberdade, sexualidade e gestação, cujos registros ocorreram por meio de observação participante durante as oficinas, registros em diário de campo e análise das produções realizadas pelos estudantes. RESULTADOS: As atividades favoreceram o engajamento estudantil, ampliação do vocabulário, expressão de dúvidas e sentimentos, além de aumentar a segurança dos docentes para tratar o tema em sala. DISCUSSÃO: A ação intersetorial, articulando saúde e educação, contribuiu para superar resistências culturais e promover um espaço de escuta, diálogo e construção coletiva, alinhado à Educação Sexual Abrangente CONCLUSÃO: A experiência evidencia o potencial transformador de práticas intersetoriais no ambiente escolar e destaca a necessidade de sua replicação, com apoio institucional e formação continuada de profissionais.

 

PALAVRAS-CHAVE: Educação Sexual. Saúde Escolar. Intersetorialidade. Criança. Promoção da Saúde.

 

RESUMEN | INTRODUCCIÓN: La sexualidad constituye una dimensión fundamental de la experiencia humana y se manifiesta a lo largo de todo el desarrollo. Sin embargo, sigue siendo un tema rodeado de tabúes y silencios, especialmente durante la infancia. OBJETIVO: Describir la experiencia vivida por la primera autora en una actuación intersectorial de educación sexual, desarrollada en el marco del Programa Salud en la Escuela (Programa Saúde na Escola - PSE), con estudiantes de educación primaria de una escuela pública del municipio de Foz do Iguaçu (PR, Brasil). MÉTODO: Se trata de un relato de experiencia con enfoque cualitativo y descriptivo, realizado en una escuela pública de Foz do Iguaçu (PR, Brasil). Participaron estudiantes de 4.º y 5.º grado, el equipo del Núcleo Ampliado de Salud de la Familia (Núcleo Ampliado de Saúde da Família - NASF) y residentes multiprofesionales. La intervención incluyó talleres lúdicos sobre cuerpo, pubertad, sexualidad y embarazo, cuyos registros se realizaron mediante observación participante durante las actividades, diario de campo y análisis de las producciones elaboradas por los estudiantes. RESULTADOS: Las actividades favorecieron la participación estudiantil, la ampliación del vocabulario, la expresión de dudas y sentimientos, además de aumentar la seguridad del profesorado para abordar el tema en el aula. DISCUSIÓN: La acción intersectorial, articulando salud y educación, contribuyó a superar resistencias culturales y a promover un espacio de escucha, diálogo y construcción colectiva, en consonancia con la Educación Sexual Integral. CONCLUSIÓN: La experiencia evidencia el potencial transformador de las prácticas intersectoriales en el ámbito escolar y destaca la necesidad de replicarlas con apoyo institucional y formación continua de los profesionales.

 

PALABRAS CLAVE: Educación Sexual. Salud Escolar. Intersectorialidad. Niño. Promoción de la Salud.

 

ABSTRACT | INTRODUCTION: Sexuality is a fundamental dimension of human experience and manifests itself throughout human development. However, it remains a topic surrounded by taboos and silence, especially during childhood. OBJECTIVE: To describe the experience lived by the first author in an intersectoral sexual education initiative developed within the School Health Program (Programa Saúde na Escola - PSE) with elementary school students from a public school in the municipality of Foz do Iguaçu, Paraná, Brazil. METHOD: This is a qualitative and descriptive experience report conducted in a public school in Foz do Iguaçu, Paraná, Brazil. Participants included 4th- and 5th-grade students, the Expanded Family Health Center (Núcleo Ampliado de Saúde da Família - NASF) team, and multiprofessional residents. The intervention consisted of playful workshops addressing the body, puberty, sexuality, and pregnancy. Data were recorded through participant observation during the workshops, field notes, and analysis of the materials produced by the students. RESULTS: The activities promoted student engagement, expanded vocabulary, encouraged the expression of doubts and feelings, and increased teachers’ confidence in addressing the topic in the classroom. DISCUSSION: The intersectoral action, integrating health and education, contributed to overcoming cultural resistance and promoting a space for listening, dialogue, and collective knowledge construction, in line with Comprehensive Sexuality Education. CONCLUSION: The experience highlights the transformative potential of intersectoral practices in the school environment and emphasizes the need for their replication through institutional support and continuing professional education.

 

KEYWORDS: Sex Education. School Health. Intersectorality. Child. Health Promotion.

 

Como citar este artigo: Tomim, G. C., Pavan, C. F., Vieira, R. G., & Lupatini, S. C. (2026). Educação sexual no programa saúde na escola: relato de experiência intersetorial. Revista Psicologia, Diversidade e Saúde, 15, e6480. https://doi.org/10.17267/2317-3394rpds.2026.e6480

 

Submetido 24 set. 2025, Aceito 13 maio 2026, Publicado 22 jul. 2026

Rev. Psicol. Divers. Saúde, Salvador, 2026;15:e6480

https://doi.org/10.17267/2317-3394rpds.2026.e6480

ISSN: 2317-3394

Editoras responsáveis: Mônica Daltro, Marilda Castelar, Martha Castro

 

Título curto: Educação sexual no programa saúde na escola

Título corto:  Educación sexual en el programa salud en la escuela

Short title: Sex education in the school health program

 

Introdução

 

A sexualidade constitui uma dimensão fundamental da experiência humana, manifestando-se ao longo de todo o desenvolvimento e envolvendo aspectos biológicos, emocionais, sociais e culturais (Nunes, 2003; Maia & Ribeiro, 2011). Desde a infância as crianças vivenciam experiências relacionadas à curiosidade sobre o próprio corpo, às relações afetivas e à construção da identidade, sendo a sexualidade parte integrante do processo de desenvolvimento humano e das interações sociais que se estabelecem ao longo da vida (Silva, 2023). Maia e Ribeiro (2011) destacam que a sexualidade não se restringe às práticas sexuais, compreendendo também um conjunto de experiências afetivas, sociais e subjetivas que acompanham os indivíduos ao longo de todo o ciclo de vida.

 

Apesar de sua relevância para o desenvolvimento humano, a sexualidade ainda é frequentemente marcada por tabus, silenciamentos e preconceitos em diferentes contextos sociais. No ambiente escolar, essa temática muitas vezes é tratada de forma limitada ou evitada, refletindo valores culturais e morais historicamente construídos em torno da sexualidade (Bezerra, 2025). Estudos indicam que representações sociais sobre gênero e sexualidade são construídas desde a infância e influenciadas pelos contextos familiar, escolar e cultural, o que evidencia a importância de discutir o tema de maneira crítica e educativa nos espaços de formação social (Almeida & Cunha, 2003; Lins et al., 2014; Garbarino, 2021).

 

Nesse contexto, a escola ocupa papel fundamental na promoção da saúde e na formação cidadã, configurando-se como um espaço privilegiado para o desenvolvimento de práticas educativas relacionadas à sexualidade. Diversos estudos indicam que muitos estudantes apresentam dificuldades para dialogar sobre sexualidade com seus familiares, o que frequentemente leva à busca por informações em fontes superficiais ou pouco confiáveis (Magrin et al., 2022; Campos & Miranda, 2022). Dessa forma, o ambiente escolar torna-se um espaço relevante para garantir o acesso a informações seguras e promover reflexões críticas sobre o tema (Pereira et al., 2022; Silva et al., 2023; Guimarães & Coutinho, 2025).

 

Entretanto, pesquisas sobre práticas de educação sexual nas escolas brasileiras apontam que a abordagem da temática ainda enfrenta diversos desafios (Magrin et al., 2022; Campos & Miranda, 2022).  Em muitos contextos educacionais, as atividades relacionadas à sexualidade permanecem centradas em perspectivas biologicistas e preventivistas, priorizando conteúdos relacionados à reprodução, métodos contraceptivos e prevenção de infecções sexualmente transmissíveis. Vieira e Matsukura (2017) destacam que grande parte das práticas educativas nas escolas ainda se concentra em modelos biológico-centrados, evidenciando a necessidade de abordagens mais amplas que considerem as dimensões sociais, culturais e subjetivas da sexualidade.

 

Nesse sentido, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization [UNESCO], 2018), em parceria com outras agências internacionais, recomenda a adoção da Educação Sexual Abrangente (Comprehensive Sexuality Education – CSE), baseada em abordagens centradas nos direitos humanos e na promoção da saúde integral.

 

A CSE propõe conteúdos relacionados ao autoconhecimento, diversidade, gênero, consentimento e responsabilidade social, apresentando impactos positivos na redução de infecções sexualmente transmissíveis, gravidez precoce e violência sexual.

 

No Brasil, uma das principais políticas públicas voltadas à promoção da saúde no ambiente escolar é o Programa Saúde na Escola (PSE), que articula ações entre os setores da saúde e da educação com o objetivo de promover a saúde integral dos estudantes e desenvolver atividades educativas no ambiente escolar (Decreto nº 6.286, 2007). O Guia do PSE destaca que essas ações devem ser desenvolvidas de forma intersetorial, integrando profissionais da saúde e da educação para promover a saúde, a cidadania e o desenvolvimento integral dos estudantes por meio de práticas educativas contínuas e contextualizadas (Ministério da Saúde, 2011). Apesar de sua relevância, a implementação do PSE ainda enfrenta desafios relacionados à fragmentação entre os setores da saúde e da educação, à ausência de formação continuada dos profissionais envolvidos e às resistências culturais que dificultam o enfrentamento crítico da sexualidade no contexto escolar (Furlanetto et al., 2018; Sousa et al., 2017).

 

Estudos nacionais têm evidenciado o potencial de práticas intersetoriais na promoção da saúde sexual de crianças e adolescentes (e.g., Freitas, 2014; Ferreira et al., 2019; Magrin et al., 2022; Santos et al., 2019). Ferreira et al. (2019), por exemplo, relataram que oficinas de saúde e sexualidade desenvolvidas em escolas públicas constituíram importantes estratégias de educação em saúde, favorecendo o diálogo, a reflexão crítica e a participação ativa dos estudantes nas atividades propostas. Resultados semelhantes foram identificados por Santos et al. (2019) e Freitas (2014), que destacam a atuação da residência multiprofissional em saúde como importante estratégia para fortalecer práticas educativas relacionadas à sexualidade no âmbito do PSE.

 

A articulação entre diferentes áreas do conhecimento encontra respaldo em autores que defendem a escola como espaço de construção social da sexualidade infantil. Maia e Spaziani (2010) e Quirino e Rocha (2012) argumentam que ambientes escolares que promovem o diálogo, o acolhimento das curiosidades infantis e a educação sexual contribuem para o desenvolvimento emocional, cognitivo e relacional das crianças. Além disso, o paradigma intersetorial do Sistema Único de Saúde (SUS) reforça a importância da corresponsabilidade institucional e da atuação coletiva entre diferentes setores na promoção da saúde. Nesse contexto, parcerias entre equipes do Núcleo Ampliado de Saúde da Família (NASF) e instituições escolares demonstram potencial para desenvolver intervenções educativas mais contínuas e alinhadas aos princípios da saúde coletiva (Sousa et al., 2017).

 

Entretanto, o cenário brasileiro contemporâneo ainda apresenta desafios importantes para a consolidação da educação sexual nas escolas, incluindo a escassez de espaços permanentes de diálogo, a influência de discursos conservadores e a fragilidade das políticas públicas voltadas à formação docente e à institucionalização da temática no currículo escolar. Nesse contexto, experiências locais que buscam integrar ações educativas e práticas intersetoriais tornam-se estratégicas para a disseminação de boas práticas e para o fortalecimento de políticas públicas baseadas em evidências (UNESCO, 2018). Diante desse contexto, torna-se relevante sistematizar experiências práticas que contribuam para o fortalecimento das ações de educação sexual no ambiente escolar e para a ampliação das estratégias intersetoriais entre saúde e educação. Assim, o presente estudo tem como objetivo descrever a experiência, vivenciada pela primeira autora, na atuação intersetorial em ações de educação sexual, desenvolvida no âmbito do PSE com estudantes do ensino fundamental em uma escola pública do município de Foz do Iguaçu.

 

Metodologia

 

Trata-se de um estudo qualitativo, de natureza descritiva, caracterizado como relato de experiência. Esse tipo de estudo busca sistematizar práticas profissionais desenvolvidas em contextos específicos, contribuindo para a reflexão crítica e para o aprimoramento de intervenções no campo da saúde e da educação (Mussi et al., 2021).

 

A experiência foi desenvolvida no contexto do PSE, política pública intersetorial que articula ações entre os setores da saúde e da educação com o objetivo de promover a saúde integral de estudantes da rede pública de ensino (Decreto nº 6.286, 2007). A intervenção ocorreu entre os meses de maio e setembro de 2018 em uma escola pública de ensino fundamental localizada no município de Foz do Iguaçu.

 

As atividades foram realizadas a partir da articulação entre a equipe do NASF Leste, profissionais da rede municipal de saúde e residentes da Residência Multiprofissional em Saúde da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA), em parceria com a equipe pedagógica da escola. A escolha da instituição ocorreu após reunião com a direção e coordenação pedagógica da instituição, na qual foram identificadas demandas relacionadas à abordagem da sexualidade no ambiente escolar. Participaram da intervenção estudantes de quatro turmas do 4º ano e cinco turmas do 5º ano do ensino fundamental, com idades entre 8 e 11 anos, totalizando aproximadamente 270 alunos. Também participaram das atividades professores das turmas envolvidas e profissionais da equipe de saúde responsáveis pela execução das ações educativas.

 

Inicialmente foi realizada reunião com pais e responsáveis para apresentação da proposta da intervenção e esclarecimento das atividades a serem desenvolvidas com os estudantes. Posteriormente, foram realizadas reuniões de planejamento entre a equipe de saúde e os profissionais da escola para definição das estratégias pedagógicas e organização das oficinas educativas. As atividades foram estruturadas em oficinas educativas realizadas entre os meses de agosto e setembro de 2018, com duração média de uma hora e trinta minutos para as turmas do 4º ano e duas horas para as turmas do 5º ano. Os encontros abordaram temas relacionados ao corpo humano, puberdade, sexualidade e gestação.

 

Para o desenvolvimento das oficinas foram utilizadas metodologias participativas e recursos pedagógicos lúdicos, incluindo rodas de conversa, dramatizações, construção coletiva de linha do tempo do desenvolvimento humano, utilização de quebra-cabeça anatômico, exibição de vídeos educativos e utilização de bonecos anatômicos para simulação de cuidados com recém-nascidos. Essas estratégias foram adotadas de modo a estimular a participação ativa dos estudantes, favorecer o diálogo sobre sexualidade e promover um ambiente educativo acolhedor.

 

O registro da experiência ocorreu por meio de observação participante durante as oficinas, registros em diário de campo elaborados pela equipe executora, análise das produções realizadas pelos estudantes (e.g., desenhos, frases e textos) e aplicação de questionário semiestruturado aos docentes ao final das atividades. As informações obtidas foram analisadas a partir dos princípios da análise de conteúdo temática, permitindo identificar percepções dos participantes, manifestações de curiosidade relacionadas à sexualidade e os impactos pedagógicos da intervenção no contexto escolar.

 

Por se tratar de um relato de experiência vinculado a uma ação de educação em saúde no território, sem coleta sistemática de dados individuais e com caráter exclusivamente descritivo, este estudo está enquadrado na Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde, que dispensa a obrigatoriedade de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa. Ainda assim, todos os princípios éticos foram rigorosamente observados, incluindo o respeito à autonomia, à confidencialidade e à proteção da identidade dos participantes. A anuência dos responsáveis foi obtida em reunião presencial com a comunidade escolar.

 

Resultados

 

A intervenção realizada no âmbito do PSE possibilitou a criação de um espaço educativo voltado ao diálogo sobre sexualidade no ambiente escolar, favorecendo a participação ativa dos estudantes e ampliando a discussão de temas frequentemente silenciados no contexto educativo. Durante os primeiros encontros, observou-se que a introdução de conteúdos relacionados ao corpo humano e às transformações da puberdade gerou manifestações iniciais de constrangimento entre alguns estudantes. Comentários como “Credo” (sic), “Minha mãe vai me matar” (sic) e “Tira isso” (sic), além de risos e gestos de esconder o rosto, foram registrados durante a apresentação de imagens anatômicas utilizadas nas atividades educativas.

 

Entretanto, à medida que as oficinas avançaram e os conteúdos passaram a ser mediados por estratégias pedagógicas participativas, observou-se mudança significativa no comportamento dos estudantes. As reações iniciais de constrangimento foram gradualmente substituídas por manifestações de curiosidade, perguntas espontâneas e participação ativa nas discussões. Esse processo foi evidenciado especialmente nas rodas de conversa, nas quais os estudantes passaram a compartilhar dúvidas e experiências relacionadas às mudanças corporais, às diferenças entre meninos e meninas e ao processo de gestação. Entre as perguntas formuladas destacaram-se questionamentos como “O que o bebê faz dentro da barriga?”, “Por que o corpo muda quando a gente cresce?” e “O que acontece quando são gêmeos?”, demonstrando interesse e envolvimento com os temas abordados.

 

Os registros livres realizados pelos alunos ao final de cada oficina constituíram importante fonte de evidência e dados sobre o impacto das atividades desenvolvidas. Esses registros incluíram frases, desenhos e pequenos textos produzidos pelos estudantes, nos quais foram observadas representações relacionadas ao corpo humano, às transformações da puberdade e ao processo de gestação.

 

A análise dessas produções indicou ampliação do vocabulário relacionado aos conteúdos trabalhados, bem como maior familiaridade dos estudantes com termos anteriormente pouco utilizados no cotidiano escolar. Além disso, os registros evidenciaram sentimentos de curiosidade, acolhimento e pertencimento em relação às discussões realizadas durante as oficinas. Esses resultados sugerem que a utilização de metodologias participativas e recursos pedagógicos lúdicos contribuiu para facilitar a compreensão dos conteúdos abordados e para promover um ambiente educativo mais aberto ao diálogo sobre sexualidade.

 

A percepção da equipe docente sobre a intervenção foi investigada por meio de questionário aplicado após a conclusão das atividades. Os resultados indicaram avaliação positiva da proposta pedagógica desenvolvida. Entre os professores participantes, 83,3% afirmaram que não fariam alterações no formato da intervenção, considerando a proposta adequada à realidade da escola e à faixa etária dos estudantes. Os docentes destacaram ainda a importância da abordagem clara, respeitosa e acessível de temas como violência sexual, consentimento e autonomia corporal, frequentemente pouco discutidos no cotidiano escolar. A figura 1 apresenta os dados quantitativos obtidos a partir do questionário aplicado aos professores após a conclusão do projeto, organizados conforme a avaliação dos encontros temáticos.

 

Figura 1

Avaliação dos professores sobre os encontros temáticos realizados no projeto

 

Conforme apresentado na figura 1, os encontros que abordaram os temas sexualidade e gestação obtiveram os maiores índices de aprovação entre os docentes, sendo considerados os mais relevantes para a prática pedagógica e para a formação crítica dos estudantes. Os encontros sobre corpo humano e puberdade também foram bem avaliados, embora com menor destaque, possivelmente por já integrarem conteúdos tradicionalmente presentes no currículo escolar.

 

Os dados quantitativos apresentados corroboram os relatos qualitativos obtidos nos questionários aplicados aos professores. Entre os comentários registrados destacou-se a percepção de que todos os encontros foram relevantes para o contexto escolar, com menção especial à abordagem do sistema reprodutor humano, considerada particularmente marcante pela clareza das explicações e pela importância do tema para o desenvolvimento dos estudantes.

 

As sugestões apresentadas pelos docentes evidenciaram interesse na ampliação do projeto para outras faixas etárias e na realização de ações formativas voltadas aos professores, como rodas de conversa e oficinas de formação continuada sobre educação sexual. Essas indicações reforçam o potencial pedagógico e intersetorial da proposta, destacando sua relevância como modelo de intervenção replicável no contexto das ações do PSE.

 

De modo geral, os resultados indicam que intervenções educativas baseadas em metodologias participativas e desenvolvidas a partir da articulação entre saúde e educação podem contribuir para ampliar o diálogo sobre sexualidade no ambiente escolar e fortalecer práticas de promoção da saúde voltadas ao público infantojuvenil.

 

Discussão

 

Os resultados da experiência indicam que a realização de oficinas educativas no contexto escolar pode contribuir significativamente para ampliar o diálogo sobre sexualidade entre estudantes e professores. As reações iniciais de constrangimento observadas durante as atividades demonstram como a temática da sexualidade ainda é frequentemente atravessada por tabus e silenciamentos no ambiente escolar, fenômeno amplamente descrito na literatura sobre educação sexual. Estudos apontam que a sexualidade, embora seja parte constitutiva do desenvolvimento humano, ainda é marcada por normas sociais e culturais que dificultam sua abordagem aberta em contextos educativos (Garbarino, 2021; Magrin et al., 2022; Campos & Miranda, 2022).

 

Entretanto, ao longo das atividades observou-se que o constrangimento inicial dos estudantes foi gradualmente substituído por manifestações de curiosidade e participação ativa (Pereira et al., 2022; Silva, 2023). Esse processo evidencia que a criação de ambientes educativos acolhedores e mediadores do diálogo pode favorecer a expressão de dúvidas e a construção coletiva de conhecimentos sobre sexualidade. Nesse sentido, Maia e Spaziani (2010) e Quirino e Rocha (2012) destacam que a escola pode se constituir como um espaço privilegiado para o desenvolvimento emocional, cognitivo e social das crianças, especialmente quando promove espaços de escuta e diálogo sobre temas considerados sensíveis, como a sexualidade, favorecendo a construção de conhecimentos e o desenvolvimento integral (Pereira et al., 2022).

 

Outro aspecto relevante identificado na experiência refere-se ao potencial das metodologias participativas utilizadas nas oficinas educativas. Estratégias pedagógicas como rodas de conversa, dramatizações e atividades lúdicas favoreceram o engajamento dos estudantes e estimularam a participação ativa nas discussões. Tais resultados corroboram estudos que destacam a importância de abordagens pedagógicas interativas na educação sexual escolar, uma vez que metodologias participativas tendem a facilitar a compreensão de conteúdos complexos e a promover maior envolvimento dos estudantes no processo de aprendizagem (Ferreira et al., 2019).

 

A análise das produções dos estudantes e das perguntas formuladas durante as atividades também revelou a presença de curiosidades relacionadas ao desenvolvimento corporal, às mudanças da puberdade e ao processo de gestação (Santos et al., 2019). Essas manifestações reforçam a compreensão de que a sexualidade se manifesta desde a infância por meio de questionamentos, descobertas corporais e interações sociais. Maia e Ribeiro (2011) e Silva et al. (2023) destacam que a sexualidade não se restringe às práticas sexuais, mas envolve um conjunto de experiências afetivas, sociais e subjetivas que se desenvolvem ao longo da vida.

 

No que se refere à percepção dos professores, os resultados indicaram que a intervenção contribuiu para ampliar a segurança docente na abordagem da temática da sexualidade em sala de aula. Esse achado é consistente com estudos que apontam a insegurança e a falta de formação específica como algumas das principais barreiras enfrentadas pelos professores para trabalhar educação sexual nas escolas (Furlanetto et al., 2018). De modo semelhante Oliveira e Costa (2011) identificaram dificuldades em docentes do ensino fundamental em abordar tal temática. Nesse sentido, a atuação conjunta entre profissionais da saúde e da educação pode representar uma estratégia relevante para fortalecer as práticas educativas relacionadas à sexualidade no ambiente escolar (Bringel et al., 2016; Carvalho et al., 2021).

 

A experiência também evidenciou o potencial da atuação intersetorial entre saúde e educação no desenvolvimento de ações de promoção da saúde no contexto escolar. A articulação entre a equipe do NASF, residentes multiprofissionais e professores possibilitou integrar diferentes saberes e construir estratégias pedagógicas mais sensíveis às demandas apresentadas pelos estudantes (Carvalho et al., 2021). Essa integração entre diferentes áreas do conhecimento está em consonância com os princípios do PSE, que propõe a articulação entre os setores da saúde e da educação como estratégia para promover a saúde integral dos estudantes.

 

Estudos apontam que práticas intersetoriais desenvolvidas no âmbito do PSE podem contribuir para ampliar o acesso dos estudantes a informações qualificadas sobre saúde e fortalecer as ações de promoção da saúde no ambiente escolar (Pereira et al., 2022; Carvalho et al., 2021).

 

De modo geral, os resultados da experiência indicam que ações educativas baseadas em metodologias participativas e desenvolvidas a partir de articulações intersetoriais podem contribuir para ampliar o diálogo sobre sexualidade no ambiente escolar, reduzir constrangimentos relacionados ao tema e fortalecer a integração entre serviços de saúde e instituições educativas.

 

Considerações finais

 

O presente estudo teve como objetivo relatar e analisar uma experiência intersetorial de educação sexual desenvolvida no âmbito do PSE com estudantes do ensino fundamental de uma escola pública do município de Foz do Iguaçu (PR). A sistematização dessa experiência permitiu evidenciar o potencial das ações educativas desenvolvidas em articulação entre os setores da saúde e da educação para a promoção do diálogo sobre sexualidade no ambiente escolar.

 

Os resultados indicaram impacto positivo da intervenção tanto no engajamento dos estudantes quanto na percepção da equipe pedagógica sobre a relevância das atividades realizadas. As oficinas educativas possibilitaram a criação de um espaço de escuta e diálogo sobre temas frequentemente silenciados no contexto escolar, favorecendo a expressão de dúvidas, curiosidades e reflexões relacionadas ao desenvolvimento corporal, à puberdade, à sexualidade e à gestação.

 

Os registros produzidos pelos estudantes ao final das oficinas evidenciaram apropriação dos conteúdos trabalhados e ampliação do vocabulário relacionado aos temas abordados, além de manifestações de curiosidade e interesse pelas discussões realizadas. Tais resultados sugerem que metodologias participativas e recursos pedagógicos lúdicos podem contribuir para facilitar a compreensão de conteúdos relacionados à sexualidade e promover ambientes educativos mais acolhedores e dialógicos.

 

No que se refere à percepção da equipe docente, a avaliação positiva da intervenção reforça a importância de iniciativas intersetoriais que apoiem os professores na abordagem de temas sensíveis no ambiente escolar. A articulação entre profissionais da saúde, residentes multiprofissionais e professores demonstrou potencial para fortalecer práticas educativas relacionadas à promoção da saúde e à educação sexual.

 

Entretanto, algumas limitações devem ser consideradas. Por se tratar de um relato de experiência desenvolvido em um contexto escolar específico, os resultados apresentados não podem ser generalizados para outras realidades educacionais. Ainda assim, a sistematização dessa experiência contribui para ampliar o debate sobre estratégias educativas voltadas à promoção da saúde sexual no ambiente escolar e pode subsidiar o desenvolvimento de novas intervenções no âmbito do PSE.

 

Diante disso, destaca-se a importância da continuidade de ações intersetoriais entre saúde e educação, bem como da ampliação de iniciativas de formação voltadas aos profissionais da rede escolar. Recomenda-se que estudos futuros explorem experiências semelhantes em diferentes contextos educacionais, contribuindo para o fortalecimento de políticas públicas voltadas à educação sexual e à promoção da saúde integral de crianças e adolescentes.

 

Contribuições dos autores

 

Os autores declararam ter feito contribuições substanciais ao trabalho em termos da concepção ou desenho da pesquisa; da aquisição, análise ou interpretação de dados para o trabalho; e da redação ou revisão crítica de conteúdo intelectual relevante. Todos os autores aprovaram a versão final a ser publicada e concordaram em assumir a responsabilidade pública por todos os aspectos do estudo.

 

Conflitos de interesses

 

Nenhum conflito financeiro, legal ou político envolvendo terceiros (governo, empresas e fundações privadas, etc.) foi declarado para nenhum aspecto do trabalho submetido (incluindo, mas não se limitando a subvenções e financiamentos, participação em conselho consultivo, desenho de estudo, preparação de manuscrito, análise estatística, etc.).

 

Indexadores

 

A Revista Psicologia, Diversidade e Saúde é indexada no DOAJ, EBSCO, Latindex – Catálogo 2.0 e LILACS.

 

Referências

 

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Bringel, N. M. M., Marques, K. K., Dutra, E. F. M., Carvalho, A. P. T. S., Melo, M. C. P., & Soares, F. A. A. (2016). Posturas e estratégias sobre sexualidade a partir do programa saúde na escola: discursos de professores. Revista de Enfermagem da UFSM, 6(4), 494-506. https://doi.org/10.5902/2179769221538

 

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